A Visão Da Minha Janela
Filed Under Aprendizagem Compartilhada | Posted on Novembro 11, 2009
A Visão Da Minha Janela
Hoje, logo depois que acordei e tomei meu banho e meu santo cafezinho, fui para o meu escritório fazer o que sempre faço pela manhã: ler. O dia amanheceu chovendo. Da minha escrivaninha vejo uma paisagem acinzentada, carregada de um telhado, cerca elétrica e uma antena parabólica da casa vizinha, a rua do outro lado, cercada de muros, uma mangueira e mais ao fundo, outros telhados misturados com eucaliptos que estão de frente à rodovia federal 050.
Misturado à chuva, veio uma invasão de aleluias, essas formas aladas, seja macho ou fêmea, dadas ao cupim, quando, na primavera, vão formar novas colônias. Ao experimentar fotografar a visão da minha janela, percebo que a foto não revela as aleluias e nem o mesmo ponto que tenho da minha vista.
Isto me fez pensar sobre a formação de professores. Cada professor que ensina é, em potencial, um professor que aprende. Somos diferentes no que ensinamos e na maneira que o fazemos.
Porém, é comum ouvirmos alunos reclamando que certos professores não ensinam como outros. Ora, isto é falar do óbvio, dentro dessa perspectiva. Não tenho como ensinar/aprender da mesma forma que o colega. Assim como que os alunos não aprendem também da mesma forma. Aprender então é algo pessoal?
Numa certa medida podemos dizer que sim. Podemos ver da mesma janela a mesma paisagem. Entretanto, pode haver significados diferentes. Por exemplo, eu quero aprender a fotografar com meu novo celular. Tenho ai uma multiplicidade de elementos a dominar: a máquina, a tecnologia, a luz, a relação com o objeto e o significado disso na minha vida cotidiana.
Lembro que na minha adolescência eu era muito curioso em saber como os meus professores estudavam. Isto porque eu era um aluno estudioso, para não dizer um aluno “Caxias”. Eu imaginava que se descobrisse como o meu professor estudava, se de dia, de noite, sentado, deitado, se tomava algo especial para não cochilar, etc. […], eu poderia fazer o mesmo e conseguir alcançar os conhecimentos que ele dominava. Grande ilusão juvenil, não é mesmo?
O aprendizado é uma batalha que lutamos toda uma vida. Quem desiste dela não deixa de viver, apenas não aprende.
O vôo de dispersão das aleluias tem um propósito: encontrar um local onde possam se reproduzir, formando outro ninho de cupins. Esses reprodutores alados vivem em função de um ideal: fazer sobreviver a espécie. Ora, a visão matutina da chuva fina misturada a enxamagem de aleluias fez revoar minhas idéias sobre nosso propósito no ensino superior em estar atuando na formação de futuros profissionais. Nada de conclusões científicas, apenas pensamentos em busca de reprodução.
Voltarei a falar mais disso depois…
Senado Aprova 14º Salário Para Professor
Filed Under Notícias | Posted on Novembro 10, 2009
Senado Aprova 14º Salário Para Professor
Segundo o site do Senado Federal, “A Comissão de Educação, Cultura e Esporte (CE) aprovou proposta de criação do décimo-quarto salário para professores de educação básica, lotados em escolas públicas dos Estados, DF e municípios, em sua reunião desta terça-feira (10). O texto é autorizativo em relação ao Poder Executivo”.
Lembrei-me de uma história: quando era adolescente, o meu pai sonhava que eu fizesse um concurso no Banco do Brasil. Apostava que o fato de eu ser estudioso poderia me dar uma carreira no emprego público. Acho que ele conseguiu realizar o sonho dele, mas o emprego foi conseguido não no Banco do Brasil, mas na Universidade Pública.
Bom, para que eu conseguisse ser aprovado naqueles concursos, tão concorridos do fim dos anos 1970, ele me matriculou num desses cursinhos de preparação para os concorrentes. Lembro-me de uma aula onde o professor falou algo assim: enquanto no Brasil os políticos fazem as leis, muitos brasileiros já estão estudando a forma de burlar as novas leis.
Não sei por que me ocorreu esta história quando li esta notícia da aprovação do décimo quarto salário para professor da Escola Pública dos Estados e Municípios. Estou na educação há 25 anos e a coisa que mais escuto é que regras praticadas nas empresas não dão certo nas escolas públicas. Talvez o problema disso seja querer aplicar DA MESMA FORMA essas regras. Mas não tenho certeza disso, pois não entendo tanto assim para poder opinar.
Porém, eu não gosto da idéia de um 14º salário baseado na elevação do “Índice de Desenvolvimento de Educação Básica (Ideb) do estabelecimento educacional em pelo menos 50%, durante o ano letivo”. Como eu disse, talvez até possa usar a idéia do incentivo (produtivo) para o professor, mas restringir isto a um 14º salário soa como marketing, ou pura propaganda. Ora, por que não instituir carreiras mais adequadas, tanto do ponto de vista da qualidade do trabalho, quanto financeiro, para os professores de Escolas públicas?
O professor precisa é de uma recompensa ou de reconhecimento para o seu trabalho? Não é difícil pensar que um 14º salário é mais “barato” para os governos. Talvez seja este o grande problema, qual seja, continuar fazendo da educação uma mercadoria, tal qual a panela da cozinha, o aparelho de televisão, a roupa que vestimos, a casa, que não temos, a saúde, que é pouca… […]
Colóquio Educação E Formação De Professores
Filed Under Eventos | Posted on Novembro 3, 2009
Colóquio Educação E Formação De Professores
Será realizado, no próximo dia 06 de novembro, o segundo momento do I Colóquio NEPEDUCA – Núcleo de Estudos e Pesquisa em Educação de Catalão, do Curso de Pedagogia, da Universidade Federal de Goiás – Campus Catalão.
O tema será “Educação e Formação de Professores”. Teremos a presença da Professora Olga Rosa Cabrera Garcia.
Maiores informações ligue: 64-3441-5308
Aberto ao público e as inscrição serão feitas no local, com emissão de certificado.
REALIZAÇÃO: NEPEDUCA – UFG/CAC
Meu Primeiro e Sábio Mestre
Filed Under Eventos | Posted on Outubro 16, 2009
Meu Primeiro e Sábio Mestre
Por Aparecida Maria Almeida Barros[1]
Uma pausa rápida para pensar sobre o assunto do dia: ser professor, estar professor…
Provocada pelas considerações feitas pelo prof. Wolney, sobre o ser e estar professor, eu viajei no tempo e parei nas memórias de infância. De fato, sou professora por vocação e quem me inspirou foi meu avô, um grande e sábio mestre que nunca chegou a pisar no chão de uma escola formal. Era analfabeto. Calculava de “cabeça”. Desenhava o nome porque alguém o treinou para que pudesse tirar o seu título de eleitor. Aliás, isso era um orgulho que ele mostrava aos netos, uma carteirinha amarela, dentro dela seus dados pessoais cadastrados como eleitor: Joaquim José de Almeida - por todos conhecido e carinhosamente chamado de “Seu Quincas”. Para nós, os netos, era o “Vovô Quinca”.
A todos tinha uma palavra de acolhida e atenção. Desde quando me recordo, “Vovô Quinca” era genial ao contar histórias e causos, tinha uma habilidade incrível para reunir a meninada à noite, em volta do fogão de lenha, para contar os seus causos, que ele jurava “tinham acontecidos, de verdade”. A propósito, ele seguia um verdadeiro ritual antes de iniciar suas histórias: arrumava um banquinho de madeira (entalhado pelas suas próprias mãos), no qual se sentava e se colocava ao nível de seus ouvintes. Colocava um lado um “jacá” com o milho que serviria de comida para as galinhas na manhã seguinte; noutro lado depositava uma cuia (feita de cabaça ou coité) com pequenas espigas de milho de pipoca – para o café da manhã. Tudo isto era pacientemente debulhado com a ajuda da criançada, enquanto o Vô Quincas contava suas longas e deliciosas histórias.
Uma noite na casa do Vovô Quincas era única e inesquecível. Viajávamos em suas narrativas, éramos tomados pelo medo que elas nos despertavam, ao ponto de, naquela noite, ninguém se aventurar no escuro, fosse qual fosse a urgência ou a necessidade. Era generoso nas palavras e habilidoso ao construir uma narrativa, capaz de prender a atenção de todos até o último instante, até que o fato tivesse um desfecho. Seus gestos, sua entonação de voz, enfim, pela sua boca e interpretação, as lendas, causos, histórias adquiriam vida e originalidade.
Mais tarde, durante o meu processo formativo, ao mergulhar nos fundamentos e teorias da literatura, contaminada pelas lembranças imaginava que tudo aquilo tinha sido inventado pelo meu avô, que a teoria literária estrangeira não sabia, mas os contos, lendas e fábulas eram criações do “Seu Quincas”… tantas eram as semelhanças e coincidências.
Sobre sua descendência, dizia num misto de mistério e realidade, que tinha sangue índio, pois uma avó sua tinha sido “pega no laço, que em certas épocas, a natureza chamava e ela sumia por vários dias, embrenhava no mato…”. Era um pequeno agricultor que produzia e cultivava a terra com o esforço dos seus braços e ferramentas rústicas, quase primitivas. Morreu sem jamais possuir um pedaço de terra que lhe pertencesse.
Nas situações cotidianas, era uma beleza acompanhar Vovô Quincas em suas andanças pelo quintal, em meio aos abacates, jabuticabas, laranjas e mexericas; outras vezes as excursões ocorriam pela imensa lavoura de arroz, entremeadas por pés de abóboras, pepinos e melancias. Tudo era embalado pelas explicações por ele dadas sobre este ou aquele detalhe da plantação. Cuidava de tudo com a mesma generosidade com que acolhia os netos. Tudo limpinho e bem cuidado, um gosto de se ver, um deleite saborear tantas frutas. Ah, neste aspecto, Vô Quincas tinha uma exigência da qual não abria mão: era preciso respeitar o momento certo da maturação das frutas para que fossem colhidas e saboreadas a seu tempo.
Tudo isto me fez ver mais tarde, que o meu primeiro mestre e grande inspirador na escolha profissional foi este sábio velho, sua maneira de ser e de se relacionar com o mundo foi uma fonte de inspiração para tornar-me professora. Vovô Quincas era um sábio e culto homem sem nunca ter vivido a experiência da escolarização. Sua forma de acolher, corrigir e educar era extraordinária! Sob sua instrução as crianças eram capazes de obedecer e realizar as tarefas por ele determinadas, sem que para isso fosse utilizada a força ou algum castigo. Conseguia ser firme e rigoroso, sem ser estúpido; era disciplinado e metódico sem nunca ter conhecido um tratado pedagógico.
Seja ao contar seus causos, ao entalhar os banquinhos de madeira, ao carpir o quintal ou debulhar o milho, seguia seus rituais de forma paciente, dividindo sua atenção com quem estivesse por perto, quase sempre partilhando de sua rica experiência de vida. A todos tinha uma palavra de encorajamento, jamais de pessimismo.
Óbvio dizer que outros tantos mestres conduziram-me na preparação para tornar-me professora, ao longo dos anos e me inspiram sempre, mas, reconheço que minhas raízes tiveram início na sabedoria e genialidade do Vovô Quincas – um educador por excelência!
[1] Neta do Seu Quincas, o avô mais lindo e genial que já existiu no Cerrado Goiano!!
dia Eventos mestre professor professora vôO Professor É Construído Na Relação
Filed Under Eventos | Posted on Outubro 15, 2009
O Professor É Construído Na Relação
O dia 15 de outubro é o dia no Brasil em que se homenageia a profissão do Professor. Eu penso que qualquer elogio que fazemos, ou recebemos, qualquer adjetivo impresso à nossa pessoa, ou que nós imprimimos nos outros professores, é como uma fotografia que se faz de um objeto em movimento: o dinâmico é emoldurado e torna-se estático.
Fotografar objetos em movimento é um desafio tanto para o fotógrafo profissional, quanto para nós, meros pintores de realidades que utilizam a tecnologia de uma máquina para fazer o que os pintores faziam com o pincel. Consideradas as diferenças de tempo e espaço, capturamos e prendemos numa imagem uma realidade altamente dinâmica que, se tivesse vida própria para poder contestar o que falam de si, certamente diria que exageramos ao enquadrá-la.
O professor é em tese aquele, ou aquela, que professa algo. Mas isto seria dizer o que ele faz e não dizer o que ele é. E para tentar dizer o que ele é eu vou utilizar a imagem de um tripé: o professor é um misto de relação com o outro, com a natureza/coisas e consigo mesmo.
Este ser que professa algo como um ato de trabalho o faz relacionando se com outras pessoas. Sua profissão está imersa no seio de relações profissionais, familiares, sociais. E isto não é pouco. Há um ditado que diz: “diga-me com quem andas que eu direi quem tu és”. Na profissão de professor poderíamos parodiar esse ditado e dizer: “diga-me com quem trabalha e com quem pensa a profissão, que eu direi quem tu és”.
Mas os professores também lidam no seu cotidiano com ruas, casas, prédios, e isto pode contribuir para inventariar o sujeito. Provavelmente, alguém que trabalha em cidades do interior do país, ou no meio rural, visualiza o seu fazer e o seu ser, de modo diferente daqueles estão nas capitais.
Por fim, a relação que o professor tem consigo mesmo, tão pouco debatido na literatura educacional, seguramente demarca este ser que teria no ensino e no aprendizado um estilo de vida.
Eu não nasci professor. Aliás, fui perceber que poderia ser professor depois de abandonar 3 anos do curso de Engenharia Química. Hoje, com quase 23 anos na carreira docente, vejo com humor aquele jovem, que temia a escrita, com medo de ser repreendido e mal interpretado, editando um Blog educacional e escrevendo posts, na tentativa de melhorar a interatividade com seus alunos e leitores.
Hoje não quero mais ser o professor que fui noutros tempos. Eu sou outra pessoa, me relaciono com outras pessoas, vivo num lugar que se modificou. Porém, carrego comigo lembranças que ao serem lembradas re-produzem significados e me re-produzem. Eu fiz as relações que me fizeram. E é talvez por isso que continuo sendo professor.
E se hoje comemoramos o aniversário de ser professor, digo que estou pronto para recomeçar, renascer, pois este é o sentido que ainda me anima e motiva: não estou pronto para ser considerado formado, mas para começar a ser outro professor.










