O Cisquinho E O Paquiderme
Filed Under Poesia | Posted on Novembro 5, 2007

Copyright © Eguimar Chaveiro
Professor - IESA - UFG
Dizem que um dos dilemas da Teoria do Conhecimento - e que invade a seara filosófica - é saber se na lógica do singular preside a lógica cósmica. Exemplificando: resta saber se um cisquinho miúdo, abandonado, tocado apenas pelas mãos rápidas do vento, é ou não um retrato do universo.
Em literatura poder-se-ia dizer que o que vale é o cisquinho no olho da criança soprado pelo pulmão milagroso da Avó. O cheiro da avó insuflado pelo seu pulmão cansado como uma imagem de maior afeto humano, demostrando que a ternura cura e o carinho salva.
Ou o sopro da prima no centro do olho abrindo o colo do seio para nos dizer da quentura que sai da sua carne, invade a nossa, deixa uma memória estranha. Quase paixão.
Tudo isso para dizer que sempre corremos atrás de uma sabedoria que nos incline a se posionar diante das situações, pequenas ou grande. Talvez queremos compreender a grandeza do cisquinho e a pequenez do paquiderme. E a nossa grandeza reside em saber dimensionar a moral com que talhamos o próximo passo. Este que deve abrir a porta do subsequente infinitamente…
——————————————————-
Se voce eh novo(a) aqui, inscreva-se ao meu RSS feed. Obrigado pela visita!
Geladeira
Filed Under Poesia | Posted on Outubro 28, 2007
Quando ia completar 47 anos
A geladeira pifou
No seu interior ainda sobrevivia alimentos
Que por serem alimentos
Davam vida a quem iriam comê-los
Mas sem a vida da geladeira
Que viveu tantos anos sendo pouco notada
Todos os alimentos corriam riscos de vida.
A geladeira, com toda a sua frigidez
Foi redescoberta,
Naquele momento de pouca dor
E preocupação alimentícia,
Como algo que invisível
Do nada se sobressalta
E explode-se com toda a sua visibilidade
Euforia
Sedução
E grande protetora da vida alimentícia
Da cegueira daqueles que só viam alimentos
Emerge a visão momentânea
De que a geladeira tem cor
Forma
Tamanho
E onde acumular energia
Para preservar a vida dos outros.
Mas a geladeira morreu
E no início
Logo após o óbito
O casal, sem saber o que fazer,
Pensou nos alimentos
Pensou no prejuízo financeiro
Na necessidade de novo investimento
Da morte urge pensar em novas vidas
Alimentando novos nascimentos
E de geladeira
Aquela forma física transformou-se num armário
Abrigando e servindo outras vidas
E no lugar da antiga geladeira
Outra se impôs
Enfeitando o ambiente
Conservando os alimentos
Estrelando como nova atração da casa
Até o momento em que cresce
E se transforma
Como a antiga geladeira
Num utensílio doméstico
Catalão, 28 de outubro de 2007
——————————————————-
Escreve É Como Parir
Filed Under Poesia | Posted on Outubro 21, 2007
O sangue
Escorrendo na mesa de cirurgia
Assemelha-se à tinta
Que também escorre
Borra
E pinta os dedos do escritor
É a parição
O nascimento
A criatura saindo do criador
O rebento que sangra e chora
O nascer
O renascer
A preservação da espécie
Fico pensando que na escrita
Seja com máquina Remington
Ou no teclado do computador
Como este que hora me serve
Os sinais deste acontecimento
São muito mais invisíveis
Surjam as teclas
As digitais espalham-se
O suor empoeirado
Mistura-se com o ar doce amargo do plástico
Tudo torna possível
O apagamento das marcas da escrita
E do pensamento
E no final
Uma sensação de fim inacabado
O rebento chora
O cansaço toma conta do corpo
E o que nos resta é cuidar da criação
Catalão, 24 de maio de 2007
——————————————————-
O caipira no ventre
Filed Under Poesia | Posted on Outubro 14, 2007
A casa estava cheia de jovens, menos homens que mulheres.
As luzes começaram a se apagar e aquela sensação, ainda translúcida,
tomava conta do ambiente, cheio de conversas paralelas, gente circulando e uma grande falta de expectativa.
No palco, uma música árabe começou a tocar suavemente.
Apesar do anúncio da diretora de arte e a ovação femina que se seguiu, quebrando a barreira do marasma e a apatia profunda que os estudantes traziam de suas casas,
acumuladas anos a fio,
e transgredida ocasionalmente por games, guetos, filmes, sexo e álcool,
todos ficaram surpresos quando no palco,
uma garota e um rapaz,
entraram, quebrando o ar das previsibilidades,
como um bafo que arrepia a alma ixesperadamente.
E como que saíssem finamente de dentro das víceras,
o casal começou a perseguir as linhas da melodia,
encurvando seus corpos para todos os lados,
endireitando e transgredindo a aspereza moral,
do interior goiano,
que tinha no seu testamento consagrado,
a dura concepção de que homem não dança a música do ventre.
Aquela apresentação,
no seio da universidade,
no templo da deusa razão,
embalou, simultaneamente, uma brisa suave no interior do cerrado machista, florido pelo regozijo boquiaberto dos homens e mulheres, expectadores e expectadoras,
e uma indigestão, um refugo,
não de uma educação tradicional,
mas de 500 anos de um mundo homem, macho,
espectro virulento das relações de gênero.
Houve um contentamento aclamado,
Carregado de palmas, gritos e assovios.
O rapaz, ainda afetado pelos seus nervos, pois que como dançarino de cidade do interior, amava a dança, mas não queria ser confundido a um boiola,
sorria no final e não entendia a mistura das palmas, gritos e assovios.
Com seu sorriso largo e trejeito caipira,
chamou a garota nos braços e lhe tacou um beijo fora do script.
Depois, pulou na frente da moça, disse brigado ao público,
e saiu rebolando em direção ao camarim.
As luzes ascenderam e o público,
agora extasiado,
manteve-se sentado, imóvel.
Não se sabe se para ainda refletir o ocorrido,
desfazer-se das incertezas plantadas pelo show, ou mesmo curtir o anestésico embriagador e silenciador da arte.
Wolney Honório Fiho
Catalão, 06 de agosto de 2007.
Vida E Morte
Filed Under Poesia | Posted on Outubro 10, 2007
O Soprando.Net começa a abrir espaço para os(as) discentes publicarem suas notas poéticas. Esta é uma política editorial, educação e poesia, que busca ampliar nosso horizontes de professores e professoras através da arte/poesia.
Abaixo, “Vida e Morte”, da aluna Dayane Marques, do 8º período do Curso de Pedagogia, UFG-Catalão.
De onde venho e para onde vou?
De onde venho não tem mais volta,
pois posso ter vindo dos mais variados pontos,
desde um grão de areia
a uma estrela cadente.
De onde venho, não me lembro.
Pode ser que até me recorde algum dia.
Mas se isso for realmente possível,
qual é o sentido da vida?
Estaria o sentido nas escolhas que faço?
Nos tombos que levo?
Nas conquistas que abraço?
Não tenho para minhas perguntas, nenhuma resposta.
Para onde vou? Não sei.
Talvez ao infinito cheio de surpresas
onde a dor e a angustia não me possam alcançar.
Ou então ao inferno quente ou frio,
distante da vida, longe da terra e do mar…
Para onde vou, também não tem volta,
Somente partida e saudade.
Quem sabe o que me espera o amanhã?
Seja somente o inicio ou o fim,
isso agora não importa muito pra mim.
Você partiu e deixou saudades,
marcas profundas dentro do meu ser.
Feridas que só o tempo pode apagar…
Sei apenas que continuo aqui,
E por enquanto é aqui que eu vou ficar.
O que busco e o que desejo encontrar?
Busco na vida a felicidade
e na morte, coberta de saudade,
Pura e simples realidade.
O que encontrarei? Não sei.
Talvez encontre em vida,
a esperança do mundo, já perdida
e na morte, o emblema da vida e da sorte!
Ou quem sabe eu busque em vida o infinito,
E encontre, na morte algo a mais
do que fui feita, e sempre serei,
das coisas que aprendi nos livros
ou de um amor que aqui, jamais encontrarei…
—————————————————————————-













