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As infidelidades de Norminha e de Abel: o que dizem os antropólogos estruturalistas?

Filed Under Tecnologias da Informação e Comunicação | Posted on Setembro 13, 2009


As infidelidades de Norminha e de Abel: o que dizem os antropólogos estruturalistas?

 

A Novela da TV Globo intitulada Caminho das Índias trouxe uma interrogação, se não a todos os telespectadores, pelo menos há alguns, como nós, professores, que teimamos em pensar a cultura televisiva: a perspectiva ou visão de mulher e homem encenada no horário nobre da TV Globo.

 

Numa conversa por telefone, recentemente, com o meu colega de trabalho, professor Sergio*, falamos, de forma breve, sobre estas questões. Como ele se mostrou interessado no assunto, eu o convidei a escrever alguma coisa e sugeri publicação aqui no Soprando.Net.

 

Abaixo, você pode ler as idéias que foram produzidas pelo professor Sergio.

 

Boa Leitura!

 

É preocupante assistir, na novela das 20h da Rede Globo, Norminha trair o marido e conseguir a legitimação do feminismo ressentido que habita todos nós, homens e mulheres. Séculos, ou milênios de traição do homem são substituídos - pelo menos na fantasia da roteirista da novela - pela traição da mulher. O gênero feminino encontra, enfim, um modo de retalhar, efetivar sua desforra, utilizando-se da mesma arma pela qual foi ferido: o falo. O mito da liberdade irrestrita e a apologia do princípio do prazer ignoram as contundentes críticas que já foram feitas a esses mitos, ignoram o compromisso emancipador para com a realidade tão alardeado pelos psicólogos e culturalistas.

 

E não bastasse a ironia-em-si do procedimento da bela Norminha, a sugestão de que Abel gosta de ser traído avoluma a vontade de vingança, de humilhação e a torna ainda mais bizarra. Os estudiosos da ética - se é que esse estudo encontraria alguma ressonância entre tal feminismo ressentido, rancoroso e rasteiro - haveriam de indagar se a imoralidade dos Abels, nos últimos milênios, justificaria a fantasia da traição feminina, como resposta profícua, como devolução strictu senso do mal fálico do macho no domínio despótico sobre a fêmea.

 

Uma resposta feminina, em grande estilo, assim como também deveria ser a resposta masculina, em semelhante ocasião, seria, antes de consumar a traição, Não! Não quero mais essa relação! É necessário que a fêmea desça à miserabilidade masculina para vingar-se como fêmea? Não estaria nesse procedimento um culto (pelo avesso) ao macho e aos seus privilégios? Não haveria em tudo isso um reforço do machismo em vez de sua crítica? Se pensarmos que a revanche de Norminha produz o ritual dos diversos machos a espreitando e fazendo apostas entre si de que conseguirão conquistá-la, possuí-la, a ingênua e equivocada “desforra” de Norminha, ao invés de acalmar o imaginário coletivo, em torno de uma pretensa vingança, não estará reforçando e alimentando a vontade fálica dos diversos conquistadores de plantão?

 

O feminismo que sustenta essa novela, com alguns personagens masculinos tão bizarrros, ludibriados, traídos e algumas mulheres fúteis, é um machismo às avessas. Não acrescenta, não amadurece a cultura, não contribui para o estímulo ao respeito pela mulher e pelo homem. Por outro lado, é tolice esperar que a televisão seja um instrumetno educativo. Há décadas temos visto como, na lógica do Mercado, a TV é refém do Ibope, da curiosidade e das fantasias menores das pessoas.

 

Não bastasse tudo isso, fiquei pensando nos antropólogos estruturalistas e a indignação que eles devem estar sentindo de tudo isso.

 

Ora, se atinarmos para o fato de que a mensagem do episódio Norminha e Abel chega aos lares de todo Brasil, perceberemos que o ethos e a estética de Ipanema, Leblon e Barra (quiçá Tijuca e Zona Norte sulizada), ornamentados de “pós-modernismo e justiça entre os gêneros”, chegam aos lares de Cumari-Go, de Imperatriz-Ma, de Rio Branco-AC, de Ituiutaba-MG, de Corumbá-MS, de Santa Maria-RS etc..

 

Nessas cidades, e nos seus arredores, homens, crianças, meninas (sobretudo), filhos de uma cultura cujo ego moral ainda está pouco estruturado e recém órfão da moralidade tradicional, “hospedam” (para lembrar Paulo Freire) esses valores, os admiram e os colocam em prática. Só Deus sabe o estrago social que produzirá tal transposição anacrônica, culturalmente falando.

 

Ora, aquela moralidade tradicional era uma referência (boa ou má) permanente que precisava de uma velocidade histórico-cultural para transformar-se; a “liberdade” de Norminha tem a velocidade virtual do instantâneo consumível e as meninas de Imperatriz-Ma referenciar-se-ão no quê na semana seguinte, quando outra novela terá início? Na ausência de uma cultura egóica e moralmente estruturada, para discernir e escolher, o resultado de suas escolhas é de responsabilidade de quem?

 

Grandes poderes exigem grandes responsabilidades. O machismo dos homens não deve ser substituído, parodoxalmente, pelo “machismo feminista”, mas pela solidariedade e respeito mútuos que findam como os “ismos” e se abrem ao diálogo, à troca que (com) plementa.

 

Finalmente, já que a Globo vende essas novelas para o mundo, que ridícula, espetaculosa e ressentida imagem terão da nossa cultura! Paciência! A arte ruim, apesar de seu des-serviço à cultura, não pode ser sensurada, apenas suportada e criticada.

 

*Sérgio Pereira da Silva

e-mail: sergiops2006@uol.com.br    

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