O Olhar Da Criança E O Cinema
Filed Under Cinema | Posted on Fevereiro 14, 2008
Navegando no mundo dos Blogs Educativos, posei no Blog Discurso citado, da Lilian Starobinas, onde encontrei referência a um post intitulado: “seduções da criança como narrador no cinema”.
Na verdade é uma referência a outro post “Filmes com criança: a culpa é dos adultos, esses adultos….”, do Blog da Lulu.
Muito sedutora a análise sobre filmes com crianças. Recomendo principalmente aos professores e professoras que se aventuram a pensar o mundo infantil também pelo olhar das câmeras de filmar.
Um dos filmes ausentes, e que gostaria de incluir na lista, é “O Garoto”, uma comédia dirigida por Charles Chaplin, de 1921.
O drama, o sonho, as risadas e as estripulias no filme não são apenas do garoto e do vagabundo Carlitos, no caso, um vidraceiro ambulante que adota um bebê abandonado em carrinho de luxo. Mas também do olhar da câmera, que confundindo ou não com o nosso olhar, sensibiliza e intervêm com uma perspectiva diferente da do adulto.
Sabe-se que Jackie Coogan, o menino que encenou “O garoto”, tornou-se uma das primeiras personalidades infantis da história. Temos ai um nítido exemplo de como o cinema se apropria da perspectiva/olhar infantil e lança no mercado simbólico a criação de uma estrela (eu li em algum lugar, que o ator mirim chegou a receber honras de príncipe em sua viagem pela Europa para divulgar o filme).
Recentemente participei de uma banca de monografia de final de curso (Curso Pedagogia – UFG – Catalão), da aluna Cristina de Fátima do Nascimento Ponciano, orientada pela professora Selma Martines Peres: “Invisibilidade da infância: uma análise da infância a partir do filme Crianças Invisíveis”. Cristina envereda pela análise da situação da criança na atualidade através deste filme.
Este é outro filme (2005) forte. Dividido em 7 curtas, com a participação de 8 diretores, “Crianças invisíveis” traz 7 histórias diferentes de crianças, em lugares diferentes, inclusive uma em São Paulo , Brasil.
Juntando os filmes citados pela Lulu, com estes dois, vejo que há uma contradição, ou talvez uma ambigüidade no enquadramento das perspectivas infantis sob o olhar da câmera do cinema.
Posso, talvez, estar exagerando, mas o cinema tanto inclui quanto exclui a criança.
Deixa eu dar uma respirada e tentar explicar o que estou dizendo.
Não vejo nestas produções apenas exclusão ou inclusão da criança. “Cinema Paradiso”, “O Labirinto do Fauno”, “O Garoto” e “Crianças invisíveis” indicam um paradoxo no trato com a criança. Ora são excluídas, ora são incluídas.
Ou seja, não se trata apenas do que está sendo representado, a realidade em si, exterior à câmera de filmar e olhar dos diretores. Mas como se representa a criança. E neste sentido, o fator propositivo e político do próprio cinema, produzindo perspectivas de mundo.
Ah, isto aqui já está virando análise acadêmica. Virando a página.
E então, estamos vivendo um excesso de imagens de crianças nas telinhas? Eu penso que sim, e a Lulu está certíssima em atualizar esta reflexão. E acredito também que a televisão tem uma forte contribuição nesta história.
Paro por aqui, se não vira projeto de pesquisa…
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Longe Da Lei E Perto Do Morro: Quando Bestialidade, Humilhação E Vingança Ocupam O Lugar Da Justiça.
Filed Under Cinema | Posted on Novembro 9, 2007
Copyright © Julio Bentivoglio
Professor de História do Brasil (UFG - Campus Catalão)
Fenômeno de bilheterias, extremamente violento e provocador, o filme Tropa de Elite revela uma tendência do cinema brasileiro de incorporar uma narrativa que se ampara no cinema comercial de entretenimento norte-americano. Assim, abdica de uma linguagem estética e cinematográfica que tem momentos expressivos como no Cinema Novo, para adotar roteiro, fotografia e edição muito calcados no “modelo” americano. E como mote, toma assuntos polêmicos e muito caros à realidade brasileira: corrupção e violência. Essa combinação produziu uma acolhida sem precedentes e, ao contrário de filmes extraordinários e que ficaram ao largo dos espectadores como o maravilhoso Lavoura Arcaica de Luiz Fernando Carvalho que trilhou um caminho original em sua confecção, optou por localizar na polêmica sua principal marca. Tanto no vazamento do filme e sua venda em dvds piratas, quanto na maneira como retrata as relações de força na sociedade brasileira, mais particularmente, na cidade do Rio de Janeiro.
Mas, não pretendo aqui alongar-me neste particular, cujo interesse recairia mais nos amantes da sétima arte, preocupados com a estética e a linguagem cinematográfica, com os rumos do cinema brasileiro, e sim, deter-me no mote, a meu ver, fundamental de Tropa de Elite que, embora se ampare na relação entre violência e corrupção não é exatamente este. Um olhar mais cuidadoso descobriria que toda a trama encontra-se tecida a partir de algo mais complexo: a vingança.
Acompanhei algumas discussões sobre o filme na TV e também na imprensa escrita, sem grande interesse, confesso. Mas, depois de assistir ao filme, não existe pessoa que consiga ficar impassível. É o tipo de filme bem feito, no sentido de atrair a atenção dos espectadores, de provocar suspense, de envolver. Bem conduzido, com linguagem ágil e boa interpretação dos atores, Tropa de Elite convence. Queira-se ou não, já constitui, em si, um marco do cinema brasileiro. Embora comparações possam ser estabelecidas com Cidade de Deus, é um filme diferente daquele, especialmente porque em Tropa de Elite o olhar é exógeno à favela. Ainda que também se utilize do recurso da narrativa em off, neste último, o narrador é alguém que não mora no morro. Tampouco nasceu ou cresceu lá. É um policial do BOP que deseja deixar aquele destacamento e encontrar outra ocupação.
A face oculta pelo excesso de violência exibida - sugiro um exercício de se contar o número de pessoas mortas nas várias trocas de tiros retratadas no filme - é a da ausência da lei e da justiça e o puro e simples exercício da vingança. Os oficiais vingam-se dos recrutas durante o treinamento, porque muitos deles eram corruptos. Os jovens recrutas vingam-se de seus oficiais, atrapalhando seu esquema corrompido de propinas, logo que descobrem o funcionamento do “sistema” na polícia do Rio. O coronel vinga-se do policial que teria lhes inteirado do “sistema” colocando-o numa missão suicida. O traficante mata um dos policiais da trama, acreditando ter se vingado da intromissão em “seu território”. E então, o capitão Nascimento se encarrega, ao lado daquele que deveria ter sido morto, de lavar com sangue a honra do batalhão. E o desfecho da trama é o “tiro de misericórdia” dado com um calibre 12 na cabeça do traficante, a despeito de seu pedido de não atirar em sua face para não estragar o velório. Fazia tempo que tamanho exercício de truculência e ferocidade aparecia nas telas. Pelo menos no cinema brasileiro.
O que a história revela é que justiça mesmo, só na base da vingança. Ele mostra como em um universo absolutamente machista (vide os papéis desempenhados pelas mulheres na trama), a relação entre a casa, a rua e o Estado é urdida por meio da violência e da corrupção.
A polícia, no filme em questão, é uma instituição falida, que age à margem da lei e do Estado. Somente o BOP é digno de sua farda, que por sinal é uma expressão do luto. Toda negra, ostenta como emblema uma caveira. O BOP é uma das faces da morte. Nesse sentido, se iguala às demais polícias corrompidas, visto não desempenhar como deveria a sua missão. Nas ruas o medo da polícia, que age segundo suas próprias regras, na favela o medo e a imposição dos traficantes. Detalhe curioso é que em sua ação, é como se igualassem, porque no morro também o tráfico tem suas próprias leis e, não por acaso a polícia, quando age naquele espaço, precisa operar segundo aquela lógica: é como se houvesse um código de honra entre policiais e traficantes. O traço fundamental deste seria a “macheza”. Resolver tudo, se possível, diretamente e com as próprias mãos; e como assunto de homens. Basta lembrar da sessão que o capitão Nascimento teve com a analista. Não confiar na lei, não confiar na polícia, não confiar no Estado, não confiar em ninguém. Desse modo, a única garantia da justiça seria fazê-la por conta própria. E, como resultado natural dessa lógica: o exercício da vingança. E esta se nos apresenta gradativamente, em forte apelo sádico, com cenas de humilhação, tortura, desumanização culminando no homicídio. E é este apelo sádico constituído em torno do ato de vingar que, como pude observar nas sessões que assisti, levou as platéias ao delírio. Diante de tantas atrocidades, de tanta bestialidade, muitos iam às lágrimas e urravam de felicidade quando, na tela, pessoas eram torturadas, espancadas e assassinadas.
Faço votos que essa catarse sirva para evitar, a reprodução daquelas condutas na vida real e que, ao mesmo tempo, o debate em torno do filme possa colocar as pessoas frente ao problema que, de fato é real, da violência e da corrupção na sociedade brasileira como um todo e não apenas numa e outra instituição, no entanto, não se poderia descuidar do cerne da questão colocada pelo filme. A de que a vingança pessoal seria a única forma possível de resolução dos
problemas que afligem as cidades brasileiras.














