Entrevista Com Professores – Mara Rúbia Guardieiro Costa
Filed Under Entrevista com Professores | Posted on Abril 26, 2008
Entrevista Com Professores – Mara Rúbia Guardieiro Costa
A professora Mara Rúbia Guardieiro Costa, Diretora do NTE - Núcleo de Tecnologia de Catalão nos fala aqui sobre sua experiência como professora.
1) Fale um pouco sobre você (de onde veio, onde trabalha, formação, etc)
Nasci em Tupaciguara_MG, mas acho que já perdi muito da minha “mineirice” vivendo tanto tempo aqui em Goiás! Certa vez me perguntaram se eu fazia parte da turma do “depende”. Disseram-me que um bom mineiro tenta tirar proveito de tudo, “depende” do que precisar! Pelo sim ou pelo não, (rs…rs…) procuro aproveitar as boas oportunidades que aparecem em minha vida! Acredito que temos que agregar algo de positivo em tudo que fazemos.
Sou graduada em Pedagogia pela Universidade Federal de Goiás – Campus de Catalão. Iniciei minha carreira como professora do ensino fundamental na tradicional Escola na Paroquial São Bernardino de Siena. Estive também um longo tempo no C. E. João Netto de Campos no ensino profissionalizante – magistério.
No ano de 2000 vim para o Núcleo de Tecnologia Educacional atrás de algo que sempre me fascinou muito que é o uso dos recursos midiáticos na educação. Tenho como prioridade investir na minha formação buscando as competências necessárias para trabalhar nesta nova perspectiva da construção do saber mediado pelas tecnologias. Hoje além de tutora em ensino a distância, estou como gestora do Núcleo de Tecnologia Educacional de Catalão – NTE.
2) Como você se tornou professor (a)?
Antes de pensar em me tornar professora, fiquei dividida entre outras profissões. Dentre elas, arquiteta, assistente social e advogada. Mas se pensarmos bem, para ser professor é preciso ser um pouquinho de tudo isso e muito mais não é mesmo?
Bem, minha primeira experiência como professora foi em Tupaciguara, aos 16 anos com o programa do Movimento Brasileiro de Alfabetização _MOBRAL. Gostei muito desta experiência e logo depois vim fazer o magistério aqui em Catalão, no extinto curso de Formação de Professores. Ingressei no Estado em 1979. Olhando para trás vejo que todos os meus caminhos se cruzavam com a educação!
3) Como tem sido a sua experiência como docente?
Começo cada dia com a convicção de que é preciso estar sempre renovando para tentar acompanhar tantas mudanças. O fato de ter 30 anos de magistério não alivia em nada, muito pelo contrário, pois vivemos uma época em que a velocidade e quantidade de informações modificam as antigas certezas, criando novas dúvidas e dando espaço para um saber em constante mutação. Por isso é preciso fazer esse movimento de buscar o novo sempre. Quero também ressaltar que a profissão de professor é como outra qualquer, um dia é difícil, e o outro… também. !!rsrsrsr!!!
4) Para você, quais são as mudanças significativas quem vem acontecendo na educação brasileira nos últimos anos?
Sem dúvida nenhuma é a revolução provocada pelos diferentes meios de comunicação e interação no universo educacional. Essas ferramentas, em especial a internet fizeram com que a realidade existente nas escolas viessem à tona em tempo real o que é considerado positivo, pois, não é mais possível manipular ou retardar resultados sobre a qualidade da educação, antes escamoteados pelos governantes.
A globalização das informações permite a sociedade acompanhar e exigir uma política pública que possa garantir uma educação de qualidade.
5) Como vê a educação no futuro próximo?
Vejo que temos um grande desafio a vencer com as mudanças advindas com a inclusão das tecnologias na educação. Ela exigirá cada vez mais que o educador tenha um perfil profissional empreendedor, um profissional em mutação, aberto para o novo.
Ele terá que buscar se qualificar, investir em sua formação, se responsabilizar por ela. Talvez assim, se consiga fazer de fato uma educação integrada onde contemple o homem em toda sua dimensão.
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Entrevista Com Professores – Aparecida Maria Almeida Barros
Filed Under Entrevista com Professores | Posted on Fevereiro 26, 2008
Aparecida Maria Almeida Barros (na foto ao lado), pedagoga, foi minha aluna de graduação em Pedagogia e hoje trabalhamos juntos no mesmo departamento, da Universidade Federal de Goiás – Campus de Catalão.
Todas estas entrevistas publicadas até o momento vêm revelando algo de extraordinário nestas histórias de vidas: cada um as conta da melhor forma que lhe convém. E isto está sendo sensacional, pois esta multiplicidade de histórias vem mostrando a complexidade das formações e perspectivas de professores no nosso Brasil.
E no caso, aqui da Cida, algo em comum: quando jovens, tivemos experiências de docências na pastoral da Igreja Católica. Ela em Catalão, e eu em Uberlândia, Minas Gerais. Mas isto é outra história que um dia voltaremos a ela.
1) Fale um pouco sobre você (de onde veio, onde trabalha, formação, etc).
Falar de si mesmo não é uma tarefa fácil, já advertia o velho Sócrates “conheça-te a ti mesmo”. Na dúvida, elegi algumas marcas e evidências que, neste momento, considero ter moldado o que estou sendo hoje. Admito que este exercício não foi uma tarefa tranqüila, pois não tem como dissipar a razão da emoção, quando mergulhamos nas lembranças…
Sou APARECIDA MARIA ALMEIDA BARROS, professora universitária, casada, a segunda de uma prole formada por sete filhos. Meus pais não tiveram oportunidade de estudar, foram alfabetizados, mas nunca tiveram, formalmente, nenhum comprovante de escolaridade. Dos meus seis irmãos, apenas dois ficaram com o Ensino Médio e Profissionalizante, os demais conseguiram concluir o Ensino Superior.
Venho de uma comunidade rural do município de Três Ranchos, Goiás, onde nasci, vivi até os doze anos e iniciei meus estudos numa escola multiseriada, isolada, rural (Escola Isolada Lindolfo Gomes), pelas mãos da normalista dona Maria de Lourdes de Jesus.
Ao chegar à quarta série do curso primário, minha mãe viúva, com seis filhos sob sua responsabilidade, vendeu o pequeno sítio e nos mudamos para Catalão - GO.
Aparentemente frágil, mas dotada de uma força e uma visão extraordinária, mamãe entendia que a cidade seria o lugar para encaminhar os estudos dos filhos e buscar um futuro profissional a todos.
Em Catalão, conclui o primário e cursei as séries do ginásio na Escola Estadual “Abrahão André”. Depois, o curso de magistério no Colégio Estadual “João Netto de Campos”, pareceu-me a opção mais interessante. Entre 1988 e 1991 cursei Pedagogia na UFG, Campus Catalão. Também no período de 1988 a 2002, fui professora na rede estadual de ensino de Goiás, atuando em diversas áreas: docência nas séries iniciais, capacitação de professores e coordenação pedagógica.
Ingressei como professora no Ensino Superior em 1995, no Campus Catalão da UFG, através de concurso público. Cursei Especialização em Ciências Sociais na UFG (1994). Fiz Mestrado em Educação na UFU- Uberlândia (1998) e em 2006 entrei no Curso de Doutorado em Fundamentos da Educação no PPGE, UFSCar (SP).
No momento estou investindo todos os meus esforços neste empreendimento. Conforme o exposto, toda a minha trajetória de formação foi realizada em escolas públicas e a minha atuação profissional também.
2) Como você se tornou professor(a)?
Durante a adolescência e a juventude, concomitante aos estudos, dividia meu tempo com serviços de babá, doméstica e participava dos movimentos da Igreja Católica: catequese e pastoral da juventude. Desta experiência, e do envolvimento com atividades de preparação de crianças e adolescentes, surgiu o interesse em tornar-me professora, razão pela qual escolhi o curso de magistério.
Um fato curioso nesta trajetória: quando cursava o terceiro ano de magistério, ainda no primeiro semestre, certo dia cheguei em casa, guardei meu material e disse à minha mãe que tinha parado de estudar, que não iria mais para o colégio. No lugar de uma bronca recebi como resposta: “sua cabeça, seu guia…” De fato, naquele ano não estudei, mas a maior lição eu tive no ano seguinte: enquanto estava a revalidar a matrícula no colégio, meus colegas de turma, aprovados no vestibular (1987), entravam na Universidade para os cursos que já estavam em funcionamento no Campus da UFG em Catalão: letras, geografia… Foi uma grande lição…
Contudo, para o vestibular de 1988 chegaram novos cursos, tive a oportunidade de optar pelo curso de Pedagogia e ingressei na primeira turma de Catalão. Neste percurso, precisei administrar estudo e trabalho, porque ao mesmo tempo em que entrei na Universidade, fui aprovada em concurso público e convocada para uma vaga na rede estadual de ensino.
Então, durante os quatro anos de graduação, trabalhava pela manhã como secretária na Paróquia Nossa Senhora Mãe de Deus, dava aulas na Escola Paroquial “São Bernardino de Siena”, à tarde, e cursava Pedagogia à noite. Por vezes, saía de casa às seis da manhã e só retornava às vinte e três horas.
À época, vivíamos uma situação de atrasos no pagamento pelo estado e o que recebia como secretária era o único recurso de que dispunha para manter os estudos e a rotina de trabalho. Mas nem tudo era sacrifício. Aliás, sempre os encarei como desafios a serem vencidos e superados.
O tempo de estudo na universidade foi muito bom, marcado por encontro com pessoas importantes, além da introdução de conhecimentos, que se tornaram uma referência para o que sou como profissional e como gente.
Acho que vale uma breve sessão de memória deste percurso (com uma ressalva: selecionei apenas alguns profissionais, dentre algumas dezenas, para evitar que essa entrevista se torne um relatório, além de atentar contra a atenção e a boa vontade do leitor).
Ouso dizer que não esqueço: do frei Chicão, (frei Francisco Eustace, OFM), americano rigoroso, pragmático, racional, mas sensível, meu primeiro patrão; me incentivou a buscar um lugar ao sol, a não me acomodar na vida e, sobretudo, a investir o melhor dos esforços em prol do que estiver sob a minha responsabilidade.
Na rede escolar franciscana, recordo com carinho das professoras Maria Aparecida Costa, Sheyla Angélica Pereira e da secretária Suelene Nancy de Melo Martins, exemplos na organização pedagógica e na administração da escola, me conduziram nos primeiros passos enquanto professora, de forma paciente e igualmente incentivadora.
Na universidade vivenciei pelo menos duas experiências altamente significativas: o encontro com o prof. Ildeu Moreira Coelho, conferencista de primeira grandeza e com Paulo Freire, em sua visita à Faculdade de Educação da UFG, em Goiânia. Através deles apaixonei-me pelo conhecimento e descobri que o grande debate situa-se no plano das idéias, não de pessoas.
Outro detalhe na graduação: Wolney foi meu professor, no primeiro ano de sua chegada ao Campus. Certo dia, ao receber uma prova de “Metodologia de Estudos Sociais” com o resultado, procurei o professor para conversar. Na verdade, minha expectativa era a de entender o que tinha feito de errado no texto avaliativo, já que não havia nenhuma observação, mas o professor achou que a minha questão era o valor da nota. Imagino que esse tenha sido um dos contatos iniciais, que nos aproximaram na relação aluno-professor e mais tarde como colegas e amigos.
Dos tempos de trabalho na rede estadual, conservo na memória a fantástica experiência de trabalhar com as professoras Maria Helena dos Reis e Luciene Santília da Silva. A primeira, ex-aluna do Centro de Formação de Professores de Catalão, na década de 1970, com vasta experiência na docência em História e Artes, na coordenação pedagógica e na direção de escola. A segunda, colega de magistério era a ponderação, enquanto eu acionava o estopim de algumas questões. Juntas, enfrentamos os desafios de aprender a trabalhar com a formação de professores à distância, no início do Projeto “Um Salto para o Futuro”, na regional de Catalão; nossas diferentes trajetórias serviram de alicerce para a socialização de experiências interessantes com os nossos professores-aprendizes.
Ao encerrar minha atuação na rede estadual, em 2002, conservo o carinho, a amizade e a determinação dos professores, alunos e equipe gestora do Colégio Estadual “Abrahão André”, de Catalão, onde partilhei sonhos, conquistas e projetos. Sem palavras para adjetivar o empenho, o protagonismo e a luta cotidiana de todos.
Quando cursei Especialização em Ciências Sociais (1995) na UFG, encantei-me com o conteúdo, a forma, e a competência com as quais a profa. Mirza Seabra Torschi realizava a docência, a pesquisa e a reflexão crítica; sua disciplina intelectual e o seu jeito de lidar com a teoria e a prática educativa (melhor dizer, a sua práxis), tornou-se uma experiência altamente significativa, que me acompanha sempre. No mestrado, a competência, rigorosidade e disciplina do meu querido orientador, prof. Fernando Marson, foram decisivas nos primeiros passos na academia.
No doutorado, em São Carlos, reconheço que o encontro com colegas de diversas regiões do Brasil e a convivência com autores da qualidade de Ester Buffa, Paolo Nosella, Dermeval Saviani, João dos Reis Silva Jr., João Virgílio Traviaglini, Amarílio Ferreira Jr. e Marisa Bittar (minha orientadora), têm me mostrado novas e interessantes referências da intelectualidade.
Na universidade, desde 1995, na condição de docente, vivenciamos muitas situações de conflitos, lutas e dificuldades estruturais, mas a descoberta de possibilidades, de construção do novo, que se abriram ao concluir o trabalho com cada turma, alimentou nossas utopias; a alegria partilhada com cada colega que se qualifica, que desenvolve projetos, que organiza eventos. Enfim, que faz a universidade existir através do ensino, da pesquisa e da extensão, tudo isso, é um universo altamente estimulante e desafiador, que mantém viva e pulsante a nossa expectativa de estar sendo professora.
Em síntese: “… Nenhum Santo sustenta-se só”… Isto é, resgatando o diálogo entre o poeta e o político n’O Ponto de Mutação: “ninguém é uma ilha. Todo homem (e mulher) é parte do continente”. Noutras palavras, este é um acre do meu território…
3) Como tem sido a sua experiência como docente?
É difícil descolar esta pergunta da anterior, pois, vejo que as trajetórias, os encontros e as situações vivenciadas ao longo do processo de formação, refletem profundamente na nossa maneira de construir a experiência docente.
De específico posso dizer que encaro a docência como um permanente desafio, da mesma forma que pesquisar é altamente instigante e desafiador. Entendo que o contato com cada turma de alunos é único. Não só os estudantes e as circunstâncias são diferentes, a busca de novas leituras, transforma as ações do professor e pesquisador no modo de organizar seu trabalho, de ver, perceber e interpretar o mundo; em cada situação de aprendizagem o próprio professor se modifica. “Somos seres inconclusos”… “temos a consciência do incabamento”, dizia Freire. Essa condição faz com que estejamos em constante e infindável busca. Por vezes nos coloca em situação de conflito, de frustração, por não alcançar nossas metas, mas jamais de apatia, pois, a própria dinâmica do processo educativo se contrapõe ao ostracismo.
Por isso, discordo das previsões mais pessimistas que consideram o professor alienado ou parado no tempo. Impossível. A sala de aula nunca é a mesma. Todos os dias nós temos a oportunidade de vivenciarmos situações e experiências inéditas com os nossos sujeitos aprendizes.
Agora, no que diz respeito às dificuldades propriamente ditas, tenho algo que acompanha toda a minha experiência docente: eu me preocupo com a relação dos estudantes com o conhecimento, com a falta de envolvimento e de empolgação dos aprendizes em relação ao saber. O conhecimento, a cultura, a arte, a estética, a filosofia, a história, a sociologia, a literatura, a linguagem, precisam ser vivenciadas com intensidade, experimentadas de maneira contagiante. Aluno de graduação que não se lança por inteiro nas diferentes faces do conhecimento, do saber, corre o risco de ficar à margem e não ter sua pele impregnada pela beleza e pela descoberta do conhecer… Não acontece mudança na sua forma de perceber e ver o mundo e, por conseguinte, limita sua visão sobre a educação, compromete, inclusive, suas escolhas profissionais.
4) Para você, quais são as mudanças significativas que vem acontecendo na educação brasileira nos últimos anos?
Acho que o grande mérito do século XX foi (e continua sendo) o esforço político e social de universalizar a Educação Básica, assegurar que nenhuma criança fique fora da escola. Junto deste há o enorme desafio em garantir a permanência e o sucesso escolar destas crianças. Isso compete não apenas ao poder público, mas se estende à sociedade como um todo: família, profissionais da educação e comunidade.
A partir da constituição de 1988, as leis e reformas ocorridas na educação, apesar de alguns equívocos, tiveram como ponto positivo, a orientação de processos democráticos no âmbito da escola e da gestão da educação. Isso é interessante. A possibilidade de vivenciar internamente alguns mecanismos democráticos, que estimulam a participação, a tomada de decisões e a autonomia, coloca a escola em outra sintonia com os sujeitos que dela fazem parte. Vejo com bons olhos a possibilidade de se construir uma escola, desde a sua estrutura física, até o seu projeto educativo, a partir dos anseios, interesses e desejos da comunidade local.
Lembro-me de uma fala do prof. Jefferson Ildefonso da Silva - quando estava no mestrado -, que alertava para a necessidade de se pensar a existência de uma escola, a começar pela sua localização, levando em conta os interesses da comunidade local. Ou seja, ao se projetar a construção de uma escola, as políticas municipais e/ou estaduais deveriam partir de um diagnóstico prévio, aonde a comunidade local pudesse se pronunciar sobre o que pensa, quer e deseja de uma escola, e considerar tudo isso na composição da equipe de profissionais, do projeto educativo, etc.
Então, observo que a relativa abertura democrática abre possibilidades para estas experiências, que devem ser conquistadas, apesar dos empecilhos burocráticos e da visão centralizadora, que ainda acompanha muitos dirigentes.
No âmbito das mudanças atuais, embora seja precoce uma análise de resultados, ainda não consigo vislumbrar quais são os ganhos projetados para a nova estruturação do ensino fundamental de nove anos. Para mim, até que se prove o contrário, (e eu gostaria de estar equivocada), a ampliação de oito para nove anos, do ponto de vista teórico seria uma forma de assegurar uma série a mais para o aluno apreender e consolidar os conteúdos básicos no ensino fundamental; concretamente, na prática, os benefícios não são mera conseqüência do aumento de tempo.
Há uma confusão nesta organização, falta de identidade e foco, que ofuscam as ações pontuais que poderiam reduzir o fracasso em determinadas séries (ou anos). Alterar a nomenclatura sem definir um projeto educativo direcionado para os problemas e questões que afligem esse nível de ensino, é um retrocesso grosseiro e mal colocado. Observa-se, dentre outras questões, uma corrida do mercado editorial, no intento de adequar suas publicações às determinações legais, à revelia de um projeto educativo consistente. Nem tudo o que acontece no âmbito das mudanças, que se encontra na pauta de governos e dirigentes educacionais, traduzem, de fato, em resultados significativos para a Educação.
5) Como vê a educação no futuro próximo?
Embora reconheça que o grande empenho político neste início de século está em aliar a universalização e a qualidade na Educação, sou pessimista em relação ao cenário que se descortina para o futuro. Há uma forte tendência em asfixiar as escolas com tarefas e atividades que tiram o foco educativo de sua pauta, além da imposição de modelos, forjados por decisões superiores do sistema de ensino, sem dar voz e autonomia aos professores e gestores escolares.
Parece um contra-senso, mas o fato é que em meio às acaloradas discussões sobre descentralização da gestão e da ênfase na participação e autonomia, muitas unidades escolares estão às voltas com a imposição vertical de propostas de ampliação da jornada escolar elaboradas em gabinetes. Refiro-me a tendência de alguns estados em implantar a fórceps a chamada educação integral, principalmente na Educação Básica pública, através do confinamento de alunos, professores e demais profissionais da escola, em espaços sem a menor estrutura física, pedagógica e de recursos, que permitam a realização de atividades ampliadas.
Em outras palavras, algumas políticas educacionais têm procurado resgatar o passivo da educação, acenando com alternativas que remontam à primeira metade do século XX, mas não levam em conta a necessidade de estruturação mínima das escolas, para que a idéia de educação integral se efetive. Basta visitar uma escola estadual ou municipal que ‘aderiu’ à educação integral, que logo à primeira vista verificamos estar a anos-luz das escolas de educação integral, preconizadas por Anísio Teixeira nos anos de 1930. Um absurdo!! Estou tentada a considerar que esse tipo de proposta é uma faca de dois gumes, que poderá comprometer, profundamente, os resultados qualitativos da educação pública na atual década.
Aparecida Maria Almeida Barros catalão ensino superior Entrevista com Professores formação de professor ufg UFSCarEntrevista Com Professores – Josete Maria Zimmer
Filed Under Entrevista com Professores | Posted on Fevereiro 25, 2008
Josete Maria Zimmer, na foto ao lado, Professora de Educação Física Efetiva da Rede Estadual de São Paulo.
Colaboradora do Núcleo de Comunicação e Educação (NCE/USP) no Curso Básico de Mídias na Educação, e participante de Grupo Alpha da Faculdade de Educação da USP, pesquisando Educação de Jovens e Adultos e Educação a Distância.
1) Fale um pouco sobre você (de onde veio, onde trabalha, formação, etc
Por dezessete anos, fui professora de Educação Física da Rede Estadual e Privada. Ingressei na Rede Municipal de São Paulo em 1996 e logo em seguida fui designada para a função de Professora Orientadora de Informática Educativa (POIE), que exerci até março de 2007.
Em 2006, ingressei novamente no serviço público, Estado de São Paulo. Como sou professora de Educação Física com menos de três anos de exercício, não posso atuar em outra função, a não ser que os médicos peritos me readaptem! Tenho problemas nas cordas vocais, pós-cirurgia que fiz na tireóide no final de 2005.
Enquanto aguardo as decisões administrativas e médicas, voluntariamente, sou colaboradora do Projeto TeofiloEduc@ na Mata, (projeto que iniciei em 2003 enquanto POIE). Além disso, atuo como tutora do Curso Mídias na Educação/MEC, promovido pelo Núcleo de Educação e Comunicação da Universidade de São Paulo. E, para continuar em formação, participo do Grupo Alpha, de Pesquisa em Educação de Jovens e Adultos e Educação a Distância, coordenado pela Profa. Dra. Stela Piconez, da Faculdade de Educação da USP.
Há pouco mais de dez anos, o meu maior desafio foi de aprender e ensinar a utilizar o computador como instrumento auxiliar no processo ensino-aprendizagem. A saída foi elaborar um projeto de formação para o uso pedagógico do computador e ensinar aprendendo. Hoje, embora ainda não saiba lidar com tantas tecnologias e informações ao mesmo tempo, procuro selecionar e ajudar aos alunos sobre o que melhor responde aos objetivos da escola e vida deles.
Tenho especialização em Informática Aplicada à Educação (Universidade Presbiteriana Mackenzie/2002), e em Design Instrucional para Educação On-line, (Universidade Federal de Juiz de Fora/2006).
No Blog Informática Educativa que mantenho desde 2004, descrevo algumas práticas pedagógicas com o computador e outras atividades relacionadas à Educação e Tecnologia.
2) Como você se tornou professor(a)?
Tive como exemplo meu pai que era alfabetizador em Poço Verde/ Sergipe. Aos meus nove anos de idade, eu o ajudei ensinando adultos a assinar o próprio nome. Mais tarde, já em São Paulo, influenciada pelas práticas esportivas, (Voleibol e Ginástica Rítmica Desportiva), fiz Educação Física. Voleibol ainda pratico como atividade física até hoje.
Minha primeira atuação no Magistério foi substituindo uma professora que ministrava aulas para o 3º ano do Ensino Fundamental. (época que não precisava ter o Curso de Magistério). Fiquei com a turma um semestre e logo depois assumi aulas substitutivas de Educação Física na Rede Estadual ingressando como efetiva apenas em 1986.
3) Como tem sido a sua experiência como docente?
Minha bandeira sempre foi desenvolver projetos que promovessem situações desafiadoras e incentivassem os alunos na elaboração de outros projetos próximos da realidade deles.
4) Para você, quais são as mudanças significativas quem vem acontecendo na
educação brasileira nos últimos anos?
Muitas mudanças… Especialmente relacionadas às novas tecnologias da informação e comunicação! (NTIC) Infelizmente, a escola não acompanha essas mudanças na velocidade desejada e os professores, poucos se engajam na preparação de práticas pedagógicas desafiadoras e contextualizadas com o avanço que essas novas tecnologias e mídias exigem.
5) Como vê a educação no futuro próximo?
Não consigo responder a essa questão sem lembrar as palavras da Prof. Dra. Vani Kenski (2007, p.67). Ela lembra que “educar para a inovação e a mudança significa planejar e implantar propostas dinâmicas de aprendizagem” E isso significa que a escola contribua para uma nova forma de humanidade, em que a tecnologia esteja fortemente presente e faça parte do cotidiano, sem que isso signifique submissão a ela. “O desafio para nós educadores que utilizamos tecnologias é inventar e descobrir usos cada vez mais criativos, que inspirem professores e alunos a gostar de aprender continuamente”.
Eu não consigo ver a Educação do futuro desvinculada das NTIC. Penso que os alunos cada vez mais estarão à frente dos professores nesse quesito. O que fazer? Vejo um grande desafio a nossa frente.
comunicação e educação educação a distancia educacao física Entrevista com Professores Josete Maria Zimmer jovens e adultosEntrevista Com Professores – Semíramis Franciscato Alencar Moreira
Filed Under Entrevista com Professores | Posted on Fevereiro 20, 2008
Semíramis Franciscato Alencar Moreira (na foto ao lado), formada em Pedagogia pela UEMG.
Semíramis é editora do blog Educando o amanhã
1) Fale um pouco sobre você (de onde veio, onde trabalha, formação, etc).
Meu nome é Semíramis Franciscato Alencar Moreira, tenho 32 anos, casada, mãe de uma menina de 13 e um menino de 8, meus objetos de estudo integral. Sou carioca e moro em Itamonte-MG há 8 anos. Sou Licenciada em Pedagogia pela UEMG e especialista em Docência de Ensino Superior pela Universidade Estácio de Sá. Atualmente estou sem colocação na educação formal, mas faço consultorias pedagógicas para diversas escolas no Rio de Janeiro, além de projetos voluntários na Educação Ambiental.
2) Como você se tornou professor(a)?
Acho que minha paixão em ensinar se deu desde que eu era menina. Cresci com minha mãe lecionando geografia e história, encantada com todos os acidentes geográficos, lugares maravilhosos e histórias fantásticas e míticas. Por esta razão, sempre achei a vocação de ensinar, essencialmente aquela que é exercida com dedicação e amor, uma das grandes qualidades dos seres humanos.
Leciono inglês (professora particular) desde os 16 anos. Passei por Letras (português literaturas) curso que guardo saudades, mas me enveredei pelos caminhos atraentes da pedagogia e da formação de professores para Ensino Fundamental, que hoje é a razão de meus esforços na educação. Sou uma professora pedagoga muito feliz em meu ofício.
3) Como tem sido a sua experiência como docente?
Minha experiência docente tem sido diversificada e muito dinâmica. Apesar de eu me sentir à vontade sendo consultora pedagógica e analista educacional em algumas escolas, amo as salas de aula.
Entretanto, a ausência de vagas de docentes nas faculdades e universidades para especialistas em Docência de Ensino Superior tem me deixado um tanto chateada. Portanto, estou optando em continuar minha formação acadêmica e partir para novas iniciativas dentro e fora da educação.
4) Para você, quais são as mudanças significativas que vem acontecendo na educação brasileira nos últimos anos?
Nos últimos 10 anos a educação deu passos significativos, tais como:
• a valorização da educação básica, o ensino fundamental de 9 anos;
• O ingresso democratizado às universidades a partir dos sistemas de cotas e através do ProUni;
• a utilização das novas tecnologias não somente como forma de apoio às aulas presenciais, mas algumas iniciativas de EAD e a implantação da educação ambiental em algumas escolas que poderá favorecer não somente o aluno hoje, mas a preservação da vida nas próximas décadas.
São iniciativas que eu acredito, entretanto, professores e alunos devem integrar-se a essas inovações com dedicação, sem dispor do bom senso, da simplicidade e dos laços de respeito e dignidade que todos buscam.
“Sem a curiosidade que me move, que me inquieta, que me insere na busca, não aprendo nem ensino”. (Paulo Freire)
5) Como vê a educação no futuro próximo?
Minha bola de cristal não está muito nítida no momento(rsrsrsr), porém, acho que a tendência é que a educação se torne viável à todos. Não teço esta observação politicamente, mas diante do que eu mesma vejo. Pelo menos no Ensino Superior as chances vêm crescendo a olhos vistos graças as iniciativas, ainda que nascentes e falhas, dos cursos de graduação via EAD de curta, média duração ou graduação tradicional.
Entretanto, vejo que com todos os avanços na democratização do ensino, nas periferias das grandes cidades e nas cidades de interior mais carentes, ainda faltam as estruturas primárias de acesso à saúde, ao bem-estar, à cultura e à escola. Quem sofrerá com este descaso seremos nós mesmos.
blog consultorias pedagógicas Entrevista com Professores formação de professor projetos voluntários Semíramis Franciscato Alencar Moreira UEMGEntrevista Com Professores – Eguimar Chaveiro
Filed Under Entrevista com Professores | Posted on Fevereiro 13, 2008
Eguimar, com sobrenome Felício Chaveiro (na foto ao lado), é amigo de longos anos e parceiro: de partidas de futebol no início dos anos 1990; noites de boteco a falar sobre educação, mulheres, música e poesia.
Ele diz ser inventor de poesias. Pequena grande modéstia! Já há alguns anos venho lendo o que ele escreve e ele me parece sim um escrevinhador de primeira categoria. Sua escrita é instigante e provocativa. Ela nos faz, ao terminar a leitura, querer escrever também.
Abaixo, ele conta um pouco da sua experiência e perspectiva educacional.
1) Fale um pouco sobre você (de onde veio, onde trabalha, formação, etc).
O meu nome é EGUIMAR. Para o meu avô, um pequeno fazendeiro goiano, nome de pessoa era como arroz-e-feijão. Era João, José, Pedro, Maria, Luzia, Teresa. Coisa para degustar sem dificuldade. Para ele, meu nome teria que ser João ou José. Minha mãe queria mudar o condimento; desejava botar cenoura no arroz, então pensou o nome EDMAR - sofisticadíssimo. Meu avô descobriu que Edmar era um bêbado de Araçu. Deus me livre!!!. Indo da roça para o cartório sobre uma carroça, a minha derivou de Edmar, Eguimar. Estou aqui, Felício. Chaveiro.
Trabalho no Instituto de Estudos Sócio-ambientais, da UFG. Hoje digo com nitidez: tenho pertencimento pelo local do meu trabalho, por, talvez, depender pouco dele. Faço conchavos simbólicos, negociações de atoagens com gente da Superintendência de Ensino do Estado de Goiás, da União Brasileira dos Escritores, de ONGs e Movimentos sociais. E passeei muito com gente de várias formações: sou geógrafo, mas fiz mestrado na faculdade de Educação, onde estudei psicocognição e fiz doutoramento na FACULDADE DE FILOSOFIA DA USp, no departamento de geografia com uma tese em que falei sobre Goiânia pelo viés da geografia, da literatura, da história e da psicanálise. Botei na tese a palavra TRAVESSIA e escrevi um livro A VIDA É UM ENGENHO DE PASSAGENS. Parece que quero ter uma certa consciência de MOVIMENTO, PASSAGEM…
2) Como você se tornou professor(a)?
Fui um leitor precário, talvez não tão precário, na adolescência. Vinha de uma grande crise familiar. Tinha medo do olhar do Outro. Lia para escapar da solidão sem estar acompanhado. Fiz uma pequena amizade com Sartre, ainda antes do 18 anos, assim como com Fernando Sabino, Stanislau. Isso meu levou à universidade de Geografia. Entrei em 1981. Fui cúmplice ativo da praça universitária em Goiânia.
Ali era o palco do nascimento do PT-Goiás, da luta contra a ditadura militar, do nascimento da MPB goianiense, do soerguimento dos partidos comunistas, da UNE. Todos amamos Paulo Freire; quase todos amamos Frei Betto e Leonardo Boff. Fui da Cebs. Fiz teatro - Povo da Terra. Inventei uns poeminhas. Enfrentei a timidez. De repente, me tornei professor. Estou, agora, no limiar da compreensão da grandeza da profissão - e do exercício. O que virá será grande.
3) Como tem sido a sua experiência como docente?
É uma experiência que contabiliza todo o movimento do pensamento pedagógico dos 1980 até hoje. Li Paulo Freire; fiz dinâmicas; transformei a sala de aula num círculo, disse que O CÍRCULO É EMANCIPATÓRIO. Internalizei a economia política marxista entrante na geografia até 1985, por ai.
Tive uma postura crítica à externalização do marxismo; fui um razoável leitor independente. Estive nos congressos, nas associações. Fui um professor militante. Entrei fundo na pedagogia lúdica. Embirrei sempre contra a burocracia e contra a institucionalização. Agi com violência pelo caminho da irreverência. Tentei preservar a vontade de ter um bom caráter. Fundi vários campos de saber. Tive um discurso relativamente autônomo entre Chaplin, Drummond, Quintana, Marx, Milton Santos e o meu amigo Joaquim Pedro, muito ajudado por amigos como Braz José Coelho, Cláudio Fonseca, Tânia Maia, Wolney Honório, José Henrique, Ged Guimarães, João de Castro, Horieste Gomes, Elza Staciarini, Arquidones, João Batista e tantos outros atores de minha pertença….
Ou seja, posso ser contextualizado nos momentos da universidade e do pensamento pedagógico brasileiro. Mas palpitei a minha singularidade em meio a tudo isso. Sou um professor contente com o salário, com o meu invisível, com as condições de diálogo com colegas, alunos e instituições.
4) Para você, quais são as mudanças significativas que vem acontecendo na educação brasileira nos últimos anos?
Podemos classificar níveis de mudança:
a) - em nível epistemológico, vive-se mais liberdade de pensamento, mais cruzamento de paradigmas, concepções, fundamentações. Isso democratiza o ato de saber pensar, embora abre oportunidades para frentes enlouquecidas, delirantes, ou de linhas de fuga, como a auto-ajuda educacional, o esoterismo, a resacralização do pedagógico. Há novidades, como a força da COMPLEXIDADE, da FÍSICA QUÂNTICA, da DIFERENÇA. E há, também, um movimento que repõe o papel da IDEOLOGIA, do sentido político do ver-pensar. Como há, a força da compreensão da subjetividade.
b) - Em nível pedagógico, a escola lenta no mundo da pressa, ainda pensa resolver os problemas didáticos pela via da metodologia do ensino. Apesar de isso, a meu ver, não dar conta de pensar O SUJEITO DA ESCOLA e o seu sentido histórico, cria uma escola mais criativa, mais integrada com a comunidade, com o entorno, com outras linguagens como a música, a arte plástica, o futebol, o teatro, o cinema.
Há um problema central neste nível: dar conta de criar a intersubjetividade em meio ao sujeito que é produto da sociedade desigual e apressada que, por isso, tem outra percepção, outra cognição e outras demandas existenciais.
c) - Em nível profissional, o mundo diz a escola por meio da SOCIEDADE DO CONHECIMENTO, mas a escola pública não dá conta de responder os anseios do aluno trabalhador. Vive-se, então, uma fragmentação seletiva de escolas, como ESCOLAS DA GLOBO, BRADESCO, ITAU, MST, IGREJAS ETC. E dai pulveriza, também, o conhecimento para a ética, para o sexo, para o ambiente, para o trânsito.
A escola vive neste paradoxo: ela é necessário e é aviltada. Como necessidade, reluz no discurso; e como condição real, é um lugar do desespero. Além disso, a escola se abre aos novos discursos como DIFERENÇA, AMBIENTE, SEXUALIDADE e pode burocratizar como uma espécie de MODA INSURGENTE SEM AÇÃO.
5) Como vê a educação no futuro próximo?
A educação do futuro vai carregar o jeito do mundo - e as suas condições. E seguirá a sua tradição de, em sua particularidade, se forjar como uma instituição importante para vários quesitos da sociabilidade. É bem possível, que ela seja mais fazedora, porque o mundo estará cobrando isso. O que se chama de retorno ao simples, fazer a produção voltar para os quintais, para as pequenas propriedades, intensificar o mundo no mínimo, ajustar o lugar em forma de rede e de intercâmbio, conectar saberes, artes, filosofias e crenças que vão entrar na escola.
Eguimar Chaveiro Entrevista com Professores formação de professor geografia poesia












