Formação De Professor E Democracia
Filed Under Púlpito | Posted on Outubro 13, 2008
Formação De Professor E Democracia
Em um texto lido na cerimônia de encerramento do Fórum Mundial Social em 2002, José Saramago disse:
“Que fazer? Da literatura à ecologia, da fuga das galáxias ao efeito de estufa, do tratamento do lixo às congestões do tráfego, tudo se discute neste nosso mundo. Mas o sistema democrático, como se de um dado definitivamente adquirido se tratasse, intocável por natureza até à consumação dos séculos, esse não se discute. Ora, se não estou em erro, se não sou incapaz de somar dois e dois, então, entre tantas outras discussões necessárias ou indispensáveis, é urgente, antes que se nos torne demasiado tarde, promover um debate mundial sobre a democracia e as causas da sua decadência, sobre a intervenção dos cidadãos na vida política e social, sobre as relações entre os Estados e o poder económico e financeiro mundial, sobre aquilo que afirma e aquilo que nega a democracia, sobre o direito à felicidade e a uma existência digna, sobre as misérias e as esperanças da humanidade, ou, falando com menos retórica, dos simples seres humanos que a compõem, um por um e todos juntos. Não há pior engano do que o daquele que a si mesmo se engana. E assim é que estamos vivendo.”*
Bom, o leitor deve estar perguntando por que esta citação, não é mesmo? O fato é que eu a estava relendo e me lembrei da notícia do MEC sobre o novo projeto de formação de professores a ser implantado no Brasil. É sempre salutar ir à essência das questões e no mundo globalizado em que estamos vivendo, falar de Democracia pode ser cutucar o leão com vara curta, mas é extremamente necessário. E vou mais além: a formação de professores precisa ser em ambiente democrático (o que não quer dizer que não seja conflituoso, complexo) para que ele ou ela, professores, professoras, alunos, alunas, funcionários, pais, etc, experimentando a democracia possam exercitar a democracia em sua escola.
Ensinar a Democracia: isto é possível? Para responder positivamente a esta pergunta é necessário um pouco de utopia, imaginação. Primeiro, porque não poderia ser esta Democracia que está ai, pois o que estamos vendo é a desigualdade sendo globalizada. Talvez a Democracia seria o poder de alimentar cotidianamente as práticas de liberdade e autonomia, enfrentando as contradições múltiplas, mas não deixando que outros resolvam os nossos problemas.
Com certeza a Democracia a ser experimentada na Escola seria diferente daquela do Estado. Mas este não seria um princípio democrático, de que a democracia, como oxigênio da convivência social, fosse experimentada visando a liberdade e a autonomia de diferentes formas, em diferentes lugares, com pessoas diferentes?
* Fonte: Este Mundo da Injustiça Globalizada
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Política Técnica Versus Competência Democrática
Filed Under Aprendizagem Compartilhada | Posted on Setembro 25, 2008
Política Técnica Versus Competência Democrática
Ao ler os jornais de hoje, deparei com duas notícias que me fizeram pensar no título deste post. A primeira foi Bush admite que EUA estão imersos em uma “grave crise financeira”. O presidente dos Estados Unidos solicita ao congresso americano nada menos do que US$ 700 bilhões (de dólares) para remediar a crise financeira americana.
A outra, diz que Professor defende punição severa a aluno, diz pesquisa, matéria também publicada na folha de São Paulo online (restrita a assinantes). Trata-se de uma pesquisa realizada pela parceria entre a Organização dos Estados Ibero-americanos e a Fundação SM intitulada “A qualidade da Educação sob o olhar dos Professores”, com 8773 professores da educação básica do país.
A pesquisa detectou que 83% dos docentes defendem medidas mais duras em relação ao comportamento dos alunos. Em outras palavras, medidas mais duras para a indisciplina escolar.
Cabe ressaltar uma ligação entre a indisciplina e a gestão escolar: “As escolas brasileiras são espaços desorganizados, pouco propiciadores de um ambiente facilitador para estudo e reflexão. Isso se deve a problemas de comportamento dos alunos e a problemas de gestão e organização [das escolas]”.
Pois bem, por que estas matérias me fizeram criar o título deste post? Vejo ai um problema sério de valorização, ou melhor, de desvalorização à democracia. As matérias são na verdade uma conseqüência do pouco valor sócio cultural que tem sido dado às concepções de autoridade e liberdade não só no Brasil, mas em todo o planeta (afinal estamos na era planetária).
Por um lado, vemos a maior nação do planeta sendo engolida pelo seu próprio veneno, que é a economia neoliberal, controlada pelo capital financeiro virtual. A economia acima da política, da educação, da sociedade, da cultura. Valores técnicos, de lucros extraordinários vêm dirigindo a economia mundial nos últimos 20 ou 30 anos.
Não seria isto também a medida da gestão que estamos vendo nas escolas públicas? Através de palestras, campanhas políticas, divulgam-se a democracia nas escolas, enquanto no dia a dia escolar o que menos se vê são práticas democráticas, de debate sobre a liberdade.
Estamos num mundo onde a democracia, a autoridade e a liberdade parecem mais um produto, uma mercadoria do que um valor humano, regulando os relacionamentos sociais.
A agonia social começa a mostrar suas caras na mídia, o que já vinha acontecendo no cotidiano das pessoas comuns. É claro que o barulho, na mídia, tem também suas intenções politiqueiras. Mas talvez possamos aproveitar o momento, nós, professores e professoras, e também gritar, mostrando que as gestões escolares, em todos os níveis de educação, não são eternas, mas elas são fundamentais para se construir, cotidianamente, a democracia que tanto queremos. Ou pelo menos nós, meros mortais, imaginamos que os gestores querem.










