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A Independência Retratada Por Eduardo Bueno No Fantástico.

Filed Under Aprendizagem Compartilhada | Posted on Setembro 13, 2007

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Quadro Independência ou Morte mais conhecido com “O Grito do Ipiranga” de Pedro Américo (óleo sobre tela - 1888)

Copyright © Julio Bentivoglio
Professor de História do Brasil (UFG - Campus Catalão)

É lamentável o desserviço prestado pelo novo quadro do Fantástico “estrelado” por Eduardo Bueno em relação à História do Brasil. Com a participação de Pedro Bial, o primeiro episódio, ao apelar para o anedótico e para o pitoresco, em nada contribui para o estudo e o ensino da História. Em se tratando de um episódio decisivo da história brasileira, optou por uma versão, que a rigor, além de superficial, pela maneira apresentada, desperdiça uma oportunidade preciosa de realizar um verdadeiro debate, com uma discussão séria e responsável sobre aquele evento. De fato a história é feita de versões, mas todo historiador sério tem no seu horizonte a verdade, Bial, jornalista deveria saber disto, pois no jornalismo, como na história há um compromisso, um imperativo categórico que envolve pesquisa, reflexão e exposição de um relato marcados pela responsabilidade. Nem vem ao caso analisar como, de maneira caricata, em Um quinto dos infernos, o mesmo contexto histórico havia sido retratado, afinal, a minissérie era obra de ficção. Mas, no quadro em questão, a maneira superficial e esteriotipada serviram de mote para embasar uma suposta nova versão, que no fundo nem é tão nova assim e cujo resultado é lamentável para a história e para o bom jornalismo. Seria essa a melhor maneira de apresentar aos brasileiros, sobretudo aos mais jovens estudantes, o episódio da independência? Bueno, como historiador deveria sofrer várias admoestações: anacronismo, superficialidade, opção pelo anedótico e pitoresco, equívocos de contextualização, uso inadequado de conceitos, para citar apenas alguns. O longo tempo dedicado ao quadro poderia ser melhor utilizado para discutir as memórias construídas sobre o episódio citado e para apontar que existem diferentes versões (já que Bueno optou pela memória republicana sobre a independência, a rigor, ao texto de Tarquínio de Souza) sobre o fato. Poderia expor o porquê de D. Pedro I ter uma imagem tão negativa no Brasil, enquanto em Portugal ele é visto de maneira, muitas vezes, oposta. A rigor, a impopularidade de seu governo e posterior abdicação em 7 de abril de 1831 certamente contribuíram para que fosse tão detratado. Mas, usar como fundamentos explicativos adultério, impetuosidade, imaturidade, futilidade, enfim, é problema grave, visto serem características que podem e poderiam ser identificadas em tantos outros personagens históricos. Mas não seria o caso de pensar essa memória negativa fixada em torno do primeiro imperador, tanto por seus opositores naquele momento, quanto por inúmeros historiadores republicanos que procuravam desqualificar a monarquia e o Império? Não seria mais produtiva uma abordagem séria, que relacionasse a relação íntima existente entre Brasil e Portugal e das dificuldades da separação? Que tratasse do Império Luso-brasileiro, das estratégias de D. João VI ao deixar Pedro I no Brasil, da problemática em torno das Cortes de Lisboa e o papel dos deputados brasileiros, da influência da maçonaria e da imprensa na ruptura com a antiga metrópole, dos questionamentos da historiografia recente em torno da recolonização, das guerras vividas no Brasil com a independência, pois alguns súditos, tropas e “brasileiros” não aceitaram a ruptura, mantendo-se leais a Lisboa; enfim, são tantas e ricas as questões, múltiplas as abordagens, variados os historiadores sérios que estudam o período em foco, no entanto, o Fantástico preferiu fixar uma imagem, uma memória e uma história sobre a independência a partir da interpretação de Eduardo Bueno, que é tão superficial, tão caricata, para não dizer tão ruim, a ponto de prejudicar, ainda mais, a relação dos brasileiros, em especial os jovens estudantes, com o passado de seu país, produzindo o pior dos males, em se tratando da importância do conhecimento, que repito, é tão preciosa no jornalismo como na história: a desinformação. Não há problema em Bueno e Fantástico defenderem aquela versão, o problema é darem a impressão de que é a única, ou, o que é pior, de que ela seja a melhor.

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