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Uma Cartografia Sensível

Filed Under Eventos | Posted on Agosto 27, 2009


Uma Cartografia Sensível

 

10-089-x-0-50-m.JPGO Museu de Arte Contemporânea de Jataí convida para a exposição Uma Cartografia Sensível, de Cíntia Guimarães. A abertura será dia 01/09/2009, às 20hs.

 

Eu venho acompanhando o trabalho da pesquisadora Cíntia Guimarães à distancia e tenho observado uma intensa leitura da realidade corporal. Algo que toma o corpo como um material que foge à razão ocidental, que o modela como pronto e acabado. Como uma massa dinâmica, os pés, um dos seus trabalhos, e o corpo em geral toma forma de acordo com o contexto do olhar que vê e do seu próprio corpo que sente. Corpo a corpo, fotógrafa, pintora, se misturam com suas obras, rastreando percursos de múltiplas identidades.

 

Abaixo, comentários de *Rosemary Fritsch Brum

 

18-130-x-173-m.JPGUma Cartografia Sensível expõe as fotografias de Cíntia Guimarães. E quer interpor questões aos sintomas revelados na obra. As referências visuais assumidas pela artista estão no artista Spencer Tunick, que em seus eventos reúne corpos diferentes, em diversas situações, culturas, locais. Outras leituras, no entanto, podem ser sugeridas (e podem inclusive pertubar) como exercício do olhar. As imagens que compõem a obra proposta sugerem, enlaça duas outras presenças, a professora de artes visuais, a cineasta e arquiteta italiana Giuliana Bruno e a artista austríaca Maria Lassnig.  Em comum entre as três, as referências de pensar o corpo como uma paisagem, ou uma superfície e a sensação de habitar seu próprio corpo.

 

Cíntia descreve suas fotografias, como trazendo um corpo, ou vários em um, numa paisagem cotidiana, rotineira. Uma pele historiada, marcada pelos registros de brincadeiras de suas filhas e seu marido, onde são desenhados os contos, as amizades, as afetividades, as intimidades e a memória afetiva familiar. Criando paisagens destinadas ao efêmero, não fosse o documento gerado pela fotografia, sua mais constante expressão artística.

 

O que vemos são as imagens desenhadas pelas mãos-pés infantis no dorso 21-154-x-115-m.JPGdo pai, à semelhança de um mapa como o que Bruno descobriu na obra da novelista do século XVI, Madeleine de Scudéry, o Carte du Pays de Tendre. Nele desenhou a tentativa de dar uma imagem a uma paisagem interior, uma geografia do coração, seguindo o modo da emoção. Trata-se de um mapa que oferece a opção de distintos percursos, não é fechado diante das possibilidades em aberto pela esperança e pelos ânimos humanos. Configura-se como território da sensibilidade, ou seja, uma variedade de terrenos de emoções dispostas como uma região, com seus mares, rios, lagos e inclui algumas árvores, pontes e um número de habitações afastadas da cidade. Há até um lago da indiferença.

 

Nos traços infantis fotografados por Cíntia esse mapa é de outro teor labiríntico, talvez projete uma temporalidade em processo, portanto as formas não chegam a sua definição. Como também há vários corpos atuando, tentando habitar, estabelecer um sentido de ser e estar sobre a terra, o traço fundamental do ser-homem, na acepção de Martin Heidegger. Esforçam-se esses corpos (ou fragmentos deles) em prol da manualidade que faz um mundo de efeitos visíveis para nós. Nestes desenhos germina uma amorosa jornada, o mundo interno, que ao contrário do Carte du Pays de Tendre, está convertido numa paisagem exterior, no qual as emoções são materializadas como um movimento topográfico frenético. Pode ser uma alucinante viagem pela corporeidade-paisagem.

 

23-154-x-115-m.JPGO diálogo possível de Cíntia, fotógrafa e Maria Lassnig, pintora, é de outra ordem. Prestemos mais atenção ao corpo inerte, o corpo-superfície. O que vemos nesse corpo, recuperando-se sua vitalidade, talvez seja o encobrimento de algum desconforto, dada sua imobilidade ofertada, sacrificada, até, para o gozo do outro. Esse corpo, nu, fosse tematizado como na obra de Lassnig é um ponto de partida do pensamento que advém da noção de que somente coisas reais junto à concha que é o corpo - suas sensações psicológicas, uma sensação de pressão quando sentado ou deitado - pode propiciar a tensão e a expansão espacial, aspectos tão difíceis de por na tela, não na fotografia.

 

O trabalho de Lassnig lembra as bases frequentemente angustiantes, internas sensações de habitar seu próprio corpo, tanto fisiologicamente e como psicologicamente. A sua pintura é um meio para enfrentar a percepção de que as posições podem ser tão desconfortáveis e embaraçosas, enquanto o seu uso da cor aparece também a infligir estados de imediato angústia, estresse, ou exaustão.

 

Corpo-pintura na fotografia de Cíntia, enfim, é o corpo tomado como prisma que coleta experiências pelos sentidos, interpretadas de acordo com a maquiagem de cada um, muitas vezes máscaras que assinalam sinais, linguagens, nuances da experiência pessoal que são sacrificadas nessa linguagem comum, no cotidiano. E que sofre. Nesse corpo-paisagem surge o espaço-linguagem que se pode percorrer porque são arrumados – no caso, pintados pelas crianças, como lugares ou traços de percursos cuja essência reside no que é chamado de “coisas construídas”, conforme Heidegger.

 

As flores e motivos infantis talvez construam no desejo de atenuar os caminhos desse corpo quando em ação, corpo revoltado, em trânsito. Recobrir de proximidade, de afetividade, resguardar e respeitar o que é distante, o outro corpo, o móvel. O espaço pessoal, emocional, do próprio corpo pela percepção hapitc, ou seja, a habilidade, conforme os gregos, de ter “um toque com” alguma coisa, que é a função da pele, reunida, no instante, com a função da visão através das belas imagens de Cíntia Guimarães.

                                                                           

*Rosemary Fritsch Brum

Socióloga do NPH, UFRGS, historiadora. Promotora do concurso fotográfico latino-americano: Criança e adolescente na América Latina (Pró Reitoria de Extensão, Núcleo da criança e do adolescente, UFRGS. Vice-líder nacional do grupo de pesquisa Interartes: processos e sistemas interartísticos e estudos de performance (CNPq).

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