Voando Com Peixes
Filed Under Aprendizagem Compartilhada | Posted on Fevereiro 3, 2010
Voando Com Peixes
Claudia Flores Rodrigues*
Dia desses li uma crônica de Affonso Romano de Sant´Anna- a intimidade aqui é por conta do bem que me faz experimentar um certo desassossego quando leio suas crônicas -Assim que, ter o Affonso como meu amigo íntimo é dar abertura para que suas palavras me abracem quando me sinto sem braços. Ou melhor, sem asas…
No texto, ele comenta: “A águia é a única ave que chega a viver setenta anos. Mas para isso acontecer, por volta dos quarenta, ela precisa tomar uma séria e difícil decisão. Nessa idade, suas unhas estão compridas e flexíveis. Não conseguem mais agarrar as presas das quais se alimenta. Seu bico, alongado e pontiagudo, curva-se. As asas, envelhecidas e pesadas em função da espessura das penas, apontam contra o peito. Voar já é difícil. Nesse momento crucial de sua vida a águia tem duas alternativas: não fazer nada e morrer, ou enfrentar um dolorido processo de renovação que se estenderá por 150 dias.”
Mais adiante, em sua digressão, o autor fala das conseqüências advindas do enfrentamento desse tipo de “morte”; jogar fora o antigo bico, despedaçá-lo e esperar um novo em seu lugar, deixar que caiam as penas e pacientemente se permitir tocar pelas mãos de chronos. É lógico que se metamorfosear é assustador, mas assim como acontece com a águia, é um processo de reclusão desafiadora. A águia é uma ave de rapina de grande acuidade visual e parto de tal princípio para (me) convencer e me (re) conhecer como humana que sou. Quero me sentir águia para me descobrir sujeito. Começo a analisar a vida. A minha…Concluo que simbolicamente, o momento de deixar-se mudar pode vir acompanhado da perspicácia, da força e da majestade desta ave. Sou acometida pela vontade de voar e então saio ( de mim) em uma viagem imaginária no túnel do tempo, em que papéis se confundem e se desdobram em situações, lugares, cheiros e imagens de pessoas que compuseram meus ciclos de vida. Sinto-me verdadeiramente um pássaro, sobrevoando de forma intensa os recôncavos da minha história. Enquanto vôo, percebo detalhes com perfeição fotográfica e posso me ver andando nos meus primeiros passos, sob o olhar terno de meus pais. Naquele momento eu sorria um riso solto, numa inocência absurda. Era a minha vida começando a ser gerida por mim- ou era assim que deveria ser-, porque meus pés, minúsculos e num caminhar cambaleante podiam me levar aonde eu quisesse ir! ( ou ousasse fazê-lo), mas nesse espaço de tempo infantil temos a mão protetora dos adultos que funciona como uma seta indicativa nos dizendo:”vá por ali…” Devo ter introjetado muito bem esta última frase, dada a minha comodidade em deixar que por anos a fio me apontassem o melhor caminho (melhor pra quem?). Depois, sobrevoei zonas escurecidas; úmidas, áridas de cor e encantamento. Me vi adolescente e só, perdida em uma montanha de dores atrozes que povoam nossos corpos pueris. Uma síndrome de Pollyana e um nao -sei -quê de Lady Godyva é a tradução da miscelânea de sentimentos que fazem parte dessa fase. É bem possível que não realizemos grandes e heróicas proezas ao longo dos dias de nossa vida; fama e sucesso até pode não ser o destino da maioria, mas vivemos em estado de graça, porque na juventude desconhecemos nuvens de tensão neurótica que chegam com o tempo. Afinal de contas, a vida vem com seu próprio compasso e as mortificações advindas de um certo caráter diário de lucidez,chega de forma indesejada e com regularidade mais do que suficiente. Dos vôos suaves e despretensiosos, passamos a senhoras “quase” donas de nossos narizes; temos filhos para alimentar, a carreira, o marido ( que em alguns casos, se torna ex) e nos deparamos com a responsabilidade sobre os nossos pais, agora ranzinzas pela idade, com articulações e memória enferrujadas, nos pedindo solidariedade e colo. Ônus e bônus da dita maturidade…E assim vamos vivendo: é um projeto que falha, um amigo que se vai, os vincos do rosto, a pele cansada, os ossos carentes de cálcio a nos lembrar das marcas do tempo.
Recolho-me e fecho as asas subitamente em pleno vôo. Penso. Aborrece-me estar ziguezagueando na corda-bamba da vida como se eu fosse o bêbado e ela- a vida- o equilibrista. Tento refazer o plano: analiso se é melhor andar por linhas retas ou não. Me nego a andar em círculos, fechada em concepções e medos alheios às minhas (im) próprias vontades, com manuais rudimentares de sobrevivência em um mundo hostil e masculinizado. Decidi voar, é bem verdedade!Decidi ser águia e voar mais alto. Desprezei o êxito de um vôo glamuroso e me resignei a um habilidoso giro em círculos tentando achar o começo e o fim, cordata à idéia de que de círculos a espirais se conhece o valor da resolução em não tentar “endireitar” nada, apenas ter a certeza de se estar em constante rotação e que é preciso crescer dentro dos limites e possibilidades da própria vida reciclada e reinventada. Na fase balzaqueana da vida em que os quarenta me acenam, já não sei chorar por amores que foram embora, por amizades sazonais, por líderes inescrupulosos, pelos devastadores efeitos das opressões de uma sociedade dominada pelo poder do dinheiro acima de qualquer outro valor. Prefiro me pegar “fazendo morte”, vivendo o luto de um tempo que não serve mais senão pelas lembranças boas e por tropeços compreendidos e aceitos como aprendizado. Na maior parte do tempo, temos a tendência de fazer de nós mesmas objeto de análise estrutural como a de um átomo ou molécula; buscamos a origem de nossos problemas correntes na formação familiar, no meio social, como mito de origem usual. Nos culpamos em não ter alcançado este ou aquele sonho, porém ( a mim) não me importa quantas vezes eu tenha que rememorar meu universo interior para me sentir melhor comigo mesma. Eu poderia fazer uma lista de quantos me magoaram e de quantos eu magoei, de quantas vezes tive vontade de voar e me senti nadando com peixes, submersa e silenciosa, contrária à minha natureza livre. Nasci para ser águia, para viver acima da superfície. Este é o sentido que me faz estar aqui, a escrever este texto. Meu espelho é meu universo e nele posso ver aquilo que meus olhos me dizem e que somente o tempo, em sua onipotência me emprestaria clemência para eu retroceder ou avançar. Já não espero voar tão alto, posto que sou uma “ave de meia-idade”, mas prefiro vôos serenos e lentos a audazes e velozes. Daí a necessária paciência para me deixar cortar, para me deixar morrer e viver…Para subir na montanha mais alta e manter a calma até que caiam as penas e que cresça um bico novo, em um corpo mais velho. Existe um motivo comum para essas lutas interiores dogmatizadas, mitificadas ou não: a certeza do inacabamento no desejo secreto de ligar-se a alguém ou a algo que nos dê o sentido de pertencimento que as aves experimentam quando encontram seu próprio bando. Importa-me voar com águias. Importa-me voar com iguais tão diversos de mim, necessários à minha corajosa aceitação de buscar -e ser- quem eu sou: liberta.
* Licenciada em Letras/Espanhol(FAMES), Especialista em Orientação e Supervisão Escolar (UNIFRA), Especialista em Metodologia do Ensino Superior (FGV), Mestre em Educação(UFSM-RS), aluna do Doutorado em Educação(PUCRS).
claudiaflores_412@hotmail.com
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Aprender A Aprender
Filed Under Aprendizagem Compartilhada | Posted on Dezembro 17, 2009
Aprender A Aprender
Aprender
Surpreender
Surpreender-se
Tudo muito mágico…
A América Latina E O Primeiro Mundo
Filed Under Aprendizagem Compartilhada | Posted on Dezembro 16, 2009
A América Latina E O Primeiro Mundo
Encontrei no Blog Filosofia de Gaveta um post sobre o depoimento que o Presidente da Costa Rica fez na presença do Presidente Lula e outros Presidentes Latino Americanos, na cúpula das Américas em Trinidad e Tabago, em 18 de abril de 2009.
Pouco ou quase nada divulgado pela mídia, acredito que merece ser lido.
“ALGO HICIMOS MAL”
Palavras do Presidente Oscar Arias da Costa Rica na Cúpula das Américas em Trinidad e Tobago, 18 de abril de 2009
“Tenho a impressão de que cada vez que os países caribenhos e latino-americanos se reúnem com o presidente dos Estados Unidos da América, é para pedir-lhe coisas ou para reclamar coisas.
Quase sempre, é para culpar os Estados Unidos de nossos males passados, presentes e futuros.
Não creio que isso seja de todo justo.
Não podemos esquecer que a América Latina teve universidades antes de que os Estados Unidos criassem Harvard e William & Mary, que são as primeiras universidades desse país.
Não podemos esquecer que nesse continente, como no mundo inteiro, pelo menos até 1750 todos os americanos eram mais ou menos iguais:
todos eram pobres.
Ao aparecer a Revolução Industrial na Inglaterra, outros países sobem nesse vagão:
Alemanha, França, Estados Unidos, Canadá, Austrália, Nova Zelândia e aqui a Revolução Industrial passou pela América Latina como um cometa, e não nos demos conta.
Certamente perdemos a oportunidade.
Há também uma diferença muito grande.
Lendo a história da América Latina, comparada com a história dos Estados Unidos, compreende-se que a América Latina não teve um John Winthrop espanhol, nem português, que viesse com a Bíblia em sua mão disposto a construir uma Cidade sobre uma Colina, uma cidade que brilhasse, como foi a pretensão dos peregrinos que chegaram aos Estados Unidos.
Faz 50 anos, o México era mais rico que Portugal.
Em 1950, um país como o Brasil tinha uma renda per capita mais elevada que o da Coréia do Sul.
Faz 60 anos, Honduras tinha mais riqueza per capita que Cingapura, e hoje Cingapura em questão de
Bem, algo nós fizemos mal, os latino-americanos.
Que fizemos errado?
Nem posso enumerar todas as coisas que fizemos mal.
Para começar, temos uma escolaridade de 7 anos.
Essa é a escolaridade média da América Latina e não é o caso da maioria dos países asiáticos.
Certamente não é o caso de países como Estados Unidos e Canadá, com a melhor educação do mundo, similar a dos europeus.
De cada 10 estudantes que ingressam no nível secundário na América Latina, em alguns países, só um
termina esse nível secundário.
Há países que têm uma mortalidade infantil de 50 crianças por cada mil, quando a média nos países asiáticos mais avançados é de 8, 9 ou 10.
Nós temos países onde a carga tributária é de 12% do produto interno bruto e não é responsabilidade de ninguém, exceto nossa, que não cobremos dinheiro das pessoas mais ricas dos nossos países.
Ninguém tem a culpa disso, a não ser nós mesmos.
Em 1950, cada cidadão norte-americano era quatro vezes mais rico que um cidadão latino-americano.
Hoje em dia, um cidadão norte-americano é 10, 15 ou 20 vezes mais rico que um latino-americano.
Isso não é culpa dos Estados Unidos, é culpa nossa.
No meu pronunciamento desta manhã, me referi a um fato que para mim é grotesco e que somente demonstra que o sistema de valores do século XX, que parece ser o que estamos pondo em prática também no século XXI, é um sistema de valores equivocado.
Porque não pode ser que o mundo rico dedique 100.000 milhões de dólares para aliviar a pobreza dos 80% da população do mundo
“num planeta que tem 2.500 milhões de seres humanos com uma renda de $2 por dia”
e que gaste 13 vezes mais ($1.300.000.000.000) em armas e soldados.
*Como disse esta manhã, não pode ser que a América Latina gaste $50.000*
milhões em armas e soldados.
Eu me pergunto: quem é o nosso inimigo?
Nosso inimigo, presidente Correa, desta desigualdade que o Sr. aponta com muita razão, é a falta de educação;
é o analfabetismo;
é que não gastamos na saúde de nosso povo;
que não criamos a infra-estruturar necessária, os caminhos, as estradas, os portos, os aeroportos;
que não estamos dedicando os recursos necessários para deter a degradação do meio ambiente;
é a desigualdade que temos que nos envergonhar realmente;
é produto, entre muitas outras coisas, certamente,
de que não estamos educando nossos filhos e nossas filhas.
Vá alguém a uma universidade latino-americana e parece no entanto que estamos nos sessenta, setenta ou oitenta.
Parece que nos esquecemos de que em 9 de novembro de 1989 aconteceu algo de muito importante, ao cair o Muro de Berlim, e que o mundo mudou.
Temos que aceitar que este é um mundo diferente, e nisso francamente penso que os acadêmicos, que toda gente pensante, que todos os economistas, que todos os historiadores, quase concordam que o século XXI é um século dos asiáticos não dos latino-americanos.
E eu, lamentavelmente, concordo com eles. Porque enquanto nós continuamos discutindo sobre ideologias, continuamos discutindo sobre todos os “ismos”
(qual é o melhor? capitalismo, socialismo, comunismo, liberalismo, neoliberalismo, socialcristianismo…)
os asiáticos encontraram um “ismo” muito realista para o século XXI e o final do século XX,
que é o *pragmatismo*.
Para só citar um exemplo, recordemos que quando Deng Xiaoping visitou Cingapura e a Coréia do Sul, depois de ter-se dado conta de que seus próprios vizinhos estavam enriquecendo de uma maneira muito acelerada, regressou a Pequim e disse aos velhos camaradas maoístas que o haviam acompanhado na Grande Marcha:
“Bem, a verdade, queridos camaradas, é que a mim não importa se o gato é branco ou negro, só o que me interessa é que cace ratos”. E se Mao estivesse vivo, teria morrido de novo quando disse que “a verdade é que enriquecer é glorioso”.
E enquanto os chineses fazem isso, e desde 1979 até hoje crescem a 11%, 12% ou 13%, e tiraram 300 milhões de habitantes da pobreza, nós continuamos discutindo sobre ideologias que devíamos ter enterrado há muito tempo atrás.
A boa notícia é que isto Deng Xiaoping o conseguiu quando tinha 74 anos.
Olhando em volta, queridos presidentes, não vejo ninguém que esteja perto dos 74 anos.
Por isso só lhes peço que não esperemos completá-los para fazer as mudanças que temos que fazer.
Muchas gracias.”
America aprendizagem compartilhada Costa Rica discurso Latina Lula Oscar Arias primeiro mundoAnimação Com Areia
Filed Under Aprendizagem Compartilhada | Posted on Dezembro 15, 2009
Animação Com Areia
Kseniya Simonova, ucraniana nascida em 1985, é uma animadora de areia em seu país natal. Ela foi vencedora do Got Talent 2009, a versão ucraniana do America´s Got Talent?, programa que celebrizou Susan Boyle..
Numa impressionante performance, que você pode apreciar no vídeo, ela usa
uma enorme caixa de luz, música dramática, imaginação e o seu talento para interpretar a invasão alemã e a ocupação da Ucrânia durante a 2ª Guerra. O público vai às lágrimas…
Picasso Em Três Dimensões
Filed Under Aprendizagem Compartilhada | Posted on Dezembro 3, 2009
Picasso Em Três Dimensões
“Guernica”, quadro pintado por Picasso, inspirado na Guerra Civil Espanhola, tem uma versão multimídia, criada pela artista nova-iorquina Lena Gieseke.
Segundo o site Uol, essa animação (veja abaixo) faz parte da exposição virtual da artista. Nela, Gieseke utilizou as mais modernas técnicas de infografia digital, além de contar com a trilha musical dos músicos Christopher Johns e Matthew Anderson.
Olhar um quadro do lado de dentro, em dimensões não aparente seria talvez como olhar o quadro pela imaginação do pintor. É isso que me impressionou. Há uma multiplicidade de perspectivas indicando uma explosão de narrativas construídas pelos detalhes das mãos, rostos, bocas, olhos, dedos, etc.
Esse olhar aberto por Gieseke pode indicar também uma janela para vermos não só a guerra pelos olhos e sentimentos do pintor, mas para vermos o próprio pintor e sua reação humana à guerra. Confiram!
aprendizagem compartilhada Guernica guerra Picasso









