Formação de Professor|Cultura Educacional |Educação E Blog

No princípio, este Blog seria sobre História, Educação, Arte, Ciência e Tecnlogia. Agora é qualquer coisa que a cabeça pensa, o coração sente e os dedos teclam na redondeza e que possa contribuir para a formação do professor no Brasil.

Voando Com Peixes

Filed Under Aprendizagem Compartilhada | Posted on Fevereiro 3, 2010



Voando Com Peixes                                                                                                                                


Claudia Flores Rodrigues*

 

claudia-5.jpgDia desses li uma crônica de Affonso Romano de Sant´Anna- a intimidade aqui é por conta do bem que  me faz experimentar um certo desassossego quando leio suas crônicas -Assim  que, ter o Affonso como meu amigo íntimo é dar abertura  para que suas palavras me abracem quando me sinto sem braços. Ou melhor, sem asas…

 

No texto, ele comenta: “A águia é a única ave que chega a viver setenta anos. Mas para isso acontecer, por volta dos quarenta, ela precisa tomar uma séria e difícil decisão. Nessa idade, suas unhas estão compridas e flexíveis. Não conseguem mais agarrar as presas das quais se alimenta. Seu bico, alongado e pontiagudo, curva-se. As asas, envelhecidas e pesadas em função da espessura das penas, apontam contra o peito. Voar já é difícil. Nesse momento crucial de sua vida a águia tem duas alternativas: não fazer nada e morrer, ou enfrentar um dolorido processo de renovação que se estenderá por 150 dias.”

 

Mais adiante, em sua digressão, o autor fala das conseqüências advindas do enfrentamento desse tipo de “morte”; jogar fora o antigo bico, despedaçá-lo e esperar um novo em seu lugar, deixar que caiam as penas e pacientemente se permitir tocar pelas mãos de chronos. É lógico que se metamorfosear é assustador, mas assim como acontece com a águia,  é um processo de reclusão desafiadora. A águia é uma ave de rapina de grande acuidade visual e parto de tal princípio para (me) convencer e me (re) conhecer como humana que sou. Quero me sentir águia para me descobrir sujeito. Começo a analisar a vida. A minha…Concluo que simbolicamente, o momento de deixar-se mudar pode vir acompanhado da perspicácia, da força e da majestade desta ave. Sou acometida pela vontade de voar e então saio ( de mim) em uma viagem imaginária no túnel do tempo, em que papéis se confundem e se desdobram em situações, lugares, cheiros e imagens de pessoas que compuseram meus ciclos de vida. Sinto-me verdadeiramente um pássaro, sobrevoando de forma intensa os recôncavos da minha história. Enquanto vôo, percebo detalhes com perfeição fotográfica e posso me ver andando nos meus primeiros passos, sob o olhar terno de meus pais. Naquele momento eu sorria um riso solto, numa inocência absurda. Era a minha vida começando a ser gerida por mim- ou era assim que deveria ser-, porque meus pés, minúsculos e num caminhar cambaleante podiam me levar aonde eu quisesse ir! ( ou ousasse fazê-lo), mas nesse espaço de  tempo infantil temos a mão protetora dos adultos que funciona como uma seta indicativa nos dizendo:”vá por ali…” Devo ter introjetado muito bem esta última frase, dada a minha comodidade em deixar que por anos a fio me apontassem o melhor caminho (melhor pra quem?). Depois, sobrevoei  zonas  escurecidas; úmidas, áridas de cor e encantamento. Me vi adolescente e só, perdida em uma montanha de dores atrozes que povoam nossos corpos pueris. Uma síndrome de  Pollyana e um nao -sei -quê de Lady Godyva é a tradução da miscelânea de sentimentos que fazem parte dessa fase. É bem possível que não realizemos grandes e heróicas proezas ao longo dos dias de nossa vida; fama e sucesso até pode não ser o destino da maioria, mas vivemos em estado de graça, porque na  juventude desconhecemos nuvens de tensão neurótica que  chegam com o tempo. Afinal de contas, a vida  vem com seu próprio compasso e as mortificações advindas de um certo caráter diário de lucidez,chega de forma indesejada e com regularidade mais do que suficiente. Dos vôos suaves e despretensiosos, passamos a senhoras “quase” donas de nossos narizes; temos filhos para alimentar, a carreira, o marido ( que em alguns casos, se torna ex) e nos deparamos com a responsabilidade sobre os nossos pais, agora ranzinzas pela idade, com articulações e memória enferrujadas, nos pedindo solidariedade e colo. Ônus e bônus da dita maturidade…E assim vamos vivendo: é um projeto que falha, um amigo que se vai, os vincos do rosto, a pele cansada, os ossos carentes de cálcio a nos lembrar das marcas do tempo.

 

Recolho-me e fecho as asas subitamente em pleno vôo. Penso. Aborrece-me estar ziguezagueando na corda-bamba da vida como se eu fosse o bêbado e ela- a vida- o equilibrista. Tento refazer o plano: analiso se é melhor andar por linhas retas ou não. Me nego a andar em círculos, fechada em concepções e medos alheios às minhas (im) próprias vontades, com manuais rudimentares de sobrevivência em um mundo hostil e masculinizado. Decidi voar, é bem verdedade!Decidi ser águia e voar mais alto. Desprezei o êxito de um vôo glamuroso e me resignei a um  habilidoso giro em círculos tentando achar o começo e o fim, cordata à idéia de que de círculos a espirais se conhece o valor da resolução em não tentar “endireitar” nada, apenas ter a certeza de se estar em constante rotação e que é preciso crescer dentro dos limites e possibilidades da própria vida reciclada e reinventada. Na fase balzaqueana da vida em que os quarenta me acenam, já não sei chorar por amores que foram embora, por amizades sazonais, por líderes inescrupulosos, pelos devastadores efeitos das opressões de uma sociedade dominada pelo poder do dinheiro acima de qualquer outro valor. Prefiro me pegar “fazendo morte”, vivendo o luto de um tempo que não serve mais senão pelas lembranças boas e por tropeços compreendidos e aceitos como aprendizado. Na maior parte do tempo, temos a tendência de fazer de nós mesmas objeto de análise estrutural como a de um átomo ou molécula; buscamos a origem de nossos problemas correntes na formação familiar, no meio social, como mito de origem usual. Nos culpamos em não ter alcançado este ou aquele sonho, porém ( a mim) não me importa quantas vezes eu tenha que rememorar meu universo interior para me sentir melhor comigo mesma. Eu poderia fazer uma lista de quantos me magoaram e de quantos eu magoei, de quantas vezes tive vontade de voar e me senti nadando com peixes, submersa e silenciosa, contrária à minha natureza livre. Nasci para ser águia, para viver acima da superfície. Este é o sentido que me faz estar aqui, a escrever este texto. Meu espelho é meu universo e nele posso ver aquilo que meus olhos me dizem e que somente o tempo, em sua onipotência me emprestaria clemência para eu retroceder ou avançar. Já não espero voar tão alto, posto que sou uma “ave de meia-idade”, mas prefiro vôos serenos e lentos a audazes e velozes. Daí a necessária paciência para me deixar cortar, para me deixar morrer e viver…Para subir na montanha mais alta e manter a calma até que  caiam as penas e que cresça um bico novo, em um corpo mais velho. Existe um motivo comum para essas lutas interiores dogmatizadas, mitificadas ou não: a certeza do inacabamento no desejo secreto de ligar-se a alguém ou a algo que nos dê o sentido de pertencimento que as aves experimentam quando encontram seu próprio bando. Importa-me voar com águias. Importa-me voar com iguais tão diversos de mim, necessários à minha corajosa aceitação de buscar -e ser- quem eu sou: liberta.

 

 


* Licenciada em Letras/Espanhol(FAMES), Especialista em Orientação e Supervisão Escolar (UNIFRA), Especialista em Metodologia do Ensino Superior (FGV), Mestre em Educação(UFSM-RS), aluna do Doutorado em Educação(PUCRS).

claudiaflores_412@hotmail.com

Se voce eh novo(a) aqui, inscreva-se ao meu RSS feed. Obrigado pela visita!

1 Comentários


Close
E-mail It