CARTA PARA MÃES DE PRIMEIRA VIAGEM
Filed Under Púlpito | Posted on Maio 8, 2010
CARTA PARA MÃES DE PRIMEIRA VIAGEM
(Um beijo especial à Lola, mãe do David)
Por Claudia Flores
Na vida, no mundo, no planeta, uma coisa é certa: há o antes e o depois.
Mães trintonas, quarentonas, não se cansam de dizê-lo àquelas que ainda não entraram no mundo da maternidade: “Depois do filho, tudo muda, hein!” Na maior parte das vezes, a pretensa mãe fica ali, escudada nessa distância, que separa as mulheres que asseguraram sua descendência de forma tranqüila, das outras, cuja frase parece mais uma sentença exagerada e assustadora.
Tudo isso para dizer o óbvio: o nascimento de um bebê acarreta toda uma nova definição daquilo que julgamos ser uma rotina normal. O parto é apenas o início de um processo de mudança estrutural na vida de uma mulher, afinal, é o momento em que nasce não somente um filho, mas também uma mãe, passageira de uma aventura para a qual nunca se está suficientemente preparada.
A maternidade gera alterações físicas, psicológicas e emocionais súbitas numa mulher. Os bebês tem o poder de mudar a natureza das nossas relações e podem -ou não- mudar as nossas atitudes e prioridades de maneira muito profunda. É como se atravessássemos uma ponte de sentido único: podemos olhar para o lugar onde estávamos, mas não podemos voltar.
O que é, então, tornar-se mãe?
Há quem diga que as primeiras semanas do bebê se assemelham um pouco à ressaca de carnaval. Tudo está envolto num manto de estranheza. Há uma pessoa nova em casa, vinda de dentro da mulher e não do exterior, que chama a qualquer hora do dia ou da noite e à qual nunca se pode dizer “chame mais tarde, porque agora mamãe está com sono.” Depois, é o próprio corpo que não se reconhece, com volumes e formas inesperadas e dores onde não se julgou possível existir acompanhado de um cansaço constante. Além disso, há um time feminino dizendo que tudo é normal, mesmo que à mãe recém-nascida a situação pareça estranha e assustadora, e só a sossegue algo que se assemelha a um sorriso no rosto do seu filho. Ah, isso sim é pura magia!
Volta e meia a mãe novinha e recém-nascida se questiona como é que uma criatura tão pequenina pode causar tamanho caos à sua volta e exigir todos os minutos da sua atenção. Anda pela casa, feliz, porém estafada…A ela lhe parece que o dia gira em torno de mil e uma coisas: das fraldas, das visitas, do ninho desarrumado, e cada vez que o som do choro lhe toma os ouvidos sente-se na obrigação de saber imediatamente o porquê. Não que a situação lhe seja completamente alheia, afinal uma ou duas das suas melhores amigas de infância tiveram filhos, mas o fato é que nunca - ou quase nunca - mencionamos as verdadeiras dificuldades, porque que há um certo tabu em falar dos nossos medos, posto que temos que ser mães perfeitas, estilo refresco de pacote ao qual só basta juntar água e… tá pronto!
O mundo gira… e se modifica. Refiro-me aqui a essa mudança sísmica que caracteriza a maternidade. Ter um filho muda a forma de nos sentirmos mulheres e de nos relacionarmos com a nossa imagem no espelho. É como se saíssemos de uma determinada pele para nos ajustar a outra, totalmente nova. É o momento em que a mulher deixa de ser a menina da sua mãe para se tornar a mãe do seu filho. Isso pode causar uma mudança profunda, uma viagem interna até a sua infância e a toda uma herança inconsciente de gerar um filho e se lançar como mulher na descoberta de si mesma sob a responsabilidade da perpetuação da espécie. Um filho nascido de nossas entranhas nos dá uma sensação tão forte de propósito, de pertencermos a alguém importante, de sermos necessárias, de prestação de cuidados, de calor, de afeto… Mas, através desta aquisição extraordinária, perdemos por uns tempos também todo o sentido dos seres diversos e integrais que somos.
A maternidade é divina e cheia de contradições. Em tempos de modernidade, existem duas etapas para a maternidade: a primeira é quando nos descobrimos grávidas. Todos (amigos e parentes) nos apóiam e paparicam. Somos o centro das atenções. Porém, o bebê nasce e a coisa muda de figura: mesmo que de forma velada, o “grupo de apoio”, exige praticamente que estejamos na melhor forma ao sair da maternidade, sorridentes e impecáveis e em uma calça jeans.Claro, a cena é um exagero, mas não uma inverdade.
O nascimento de um bebê definitivamente muda a vida de uma mulher, porém provoca ondas de choque na existência do pai. Além da novidade do filho, o homem tem de aprender a lidar com uma estranha e (super) sensível companheira, cuja instabilidade hormonal aliadas a poucas horas de sono e muito estresse podem acabar em ataques de choro sem razão aparente.
Então, é justo que se diga que é nos primeiros tempos após o parto, que o Papai precisa aceitar se deixar ficar para, digamos, um segundo plano e observar a forma como a sua mulher se apaixona perdidamente pelo novo habitante da casa. É aí que a voz da experiência sussurra: “Apaixone-se você também, pois isso só fará do casal melhores pais, além de os aproximarem mais.”
Resta dizer, após essa digressão envolta em lucidez e afeto, que ofereço às “Mães de Primeira Viagem”, o registro do meu carinho e o desejo de que consigam, da forma mais generosa possível, aceitar e gozar da maternidade mesmo frente à natureza caótica e arbitrária da vida moderna. Ser mãe e mulher é aceitar e oferecer a si mesma a mudança orgânica e salutar que os filhos trazem à nossa vida, porque ser MÃE É UMA BELA E COMPLEXA VIAGEM.
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7 Responses to “CARTA PARA MÃES DE PRIMEIRA VIAGEM”
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Vou esperar pela carta aos avós de primeira viagem,
Oi, bom dia. Você poderia me passar seu email para contato?
Obrigada,
Luciana
Ana, vai sair do forno… a carta às avós EM viagem. Grande abraço. claudia flores rodrigues.
luciana, meu e-mail é claudiaflores_412@hotmail.com
oi,boa noite!fiquei muito emocionada com suas palavras,pois é exatamente assim que mim sinto (feliz e triste) ao mesmo tempo.Amo de mais a minha filha e não consigo imaginar a vida sem ela,espero que deixe mais mensagens como essa,para que possamos nos sentir aliviadas.OBRIGADA!
Fiquei muito emocionada com as palavras.
Vou ter meu primeiro filho ou filha, e antes de nascer ja fico toda boba passando a mão na barriga esperando sua chegada.
Adorei esse site.
nossa ate chorei com suas palavras vou ser mae pela primeira vez e é exatamente assim q me sinto,eu ja o amo d+ mas é tudo tao novo que da medo,espero que deixe mais dessas mensagens…obrigada!!