O caipira no ventre
Filed Under Poesia | Posted on Outubro 14, 2007
A casa estava cheia de jovens, menos homens que mulheres.
As luzes começaram a se apagar e aquela sensação, ainda translúcida,
tomava conta do ambiente, cheio de conversas paralelas, gente circulando e uma grande falta de expectativa.
No palco, uma música árabe começou a tocar suavemente.
Apesar do anúncio da diretora de arte e a ovação femina que se seguiu, quebrando a barreira do marasma e a apatia profunda que os estudantes traziam de suas casas,
acumuladas anos a fio,
e transgredida ocasionalmente por games, guetos, filmes, sexo e álcool,
todos ficaram surpresos quando no palco,
uma garota e um rapaz,
entraram, quebrando o ar das previsibilidades,
como um bafo que arrepia a alma ixesperadamente.
E como que saíssem finamente de dentro das víceras,
o casal começou a perseguir as linhas da melodia,
encurvando seus corpos para todos os lados,
endireitando e transgredindo a aspereza moral,
do interior goiano,
que tinha no seu testamento consagrado,
a dura concepção de que homem não dança a música do ventre.
Aquela apresentação,
no seio da universidade,
no templo da deusa razão,
embalou, simultaneamente, uma brisa suave no interior do cerrado machista, florido pelo regozijo boquiaberto dos homens e mulheres, expectadores e expectadoras,
e uma indigestão, um refugo,
não de uma educação tradicional,
mas de 500 anos de um mundo homem, macho,
espectro virulento das relações de gênero.
Houve um contentamento aclamado,
Carregado de palmas, gritos e assovios.
O rapaz, ainda afetado pelos seus nervos, pois que como dançarino de cidade do interior, amava a dança, mas não queria ser confundido a um boiola,
sorria no final e não entendia a mistura das palmas, gritos e assovios.
Com seu sorriso largo e trejeito caipira,
chamou a garota nos braços e lhe tacou um beijo fora do script.
Depois, pulou na frente da moça, disse brigado ao público,
e saiu rebolando em direção ao camarim.
As luzes ascenderam e o público,
agora extasiado,
manteve-se sentado, imóvel.
Não se sabe se para ainda refletir o ocorrido,
desfazer-se das incertezas plantadas pelo show, ou mesmo curtir o anestésico embriagador e silenciador da arte.
Wolney Honório Fiho
Catalão, 06 de agosto de 2007.
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