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Meu Primeiro e Sábio Mestre

Filed Under Eventos | Posted on Outubro 16, 2009



Meu Primeiro e Sábio Mestre

 

 

Por Aparecida Maria Almeida Barros[1]

 

Uma pausa rápida para pensar sobre o assunto do dia: ser professor, estar professor…

 

Provocada pelas considerações feitas pelo prof. Wolney, sobre o ser e estar professor, eu viajei no tempo e parei nas memórias de infância. De fato, sou professora por vocação e quem me inspirou foi meu avô, um grande e sábio mestre que nunca chegou a pisar no chão de uma escola formal. Era analfabeto. Calculava de “cabeça”. Desenhava o nome porque alguém o treinou para que pudesse tirar o seu título de eleitor. Aliás, isso era um orgulho que ele mostrava aos netos, uma carteirinha amarela, dentro dela seus dados pessoais cadastrados como eleitor: Joaquim José de Almeida -  por todos conhecido e carinhosamente chamado de “Seu Quincas”.  Para nós, os netos, era o “Vovô Quinca”.

 

A todos tinha uma palavra de acolhida e atenção. Desde quando me recordo, “Vovô Quinca” era genial ao contar histórias e causos, tinha uma habilidade incrível para reunir a meninada à noite, em volta do fogão de lenha, para contar os seus causos, que ele jurava “tinham acontecidos, de verdade”.  A propósito, ele seguia um verdadeiro ritual antes de iniciar suas histórias: arrumava um banquinho de madeira (entalhado pelas suas próprias mãos), no qual se sentava e se colocava ao nível de seus ouvintes.  Colocava um lado um “jacá” com o milho que serviria de comida para as galinhas na manhã seguinte; noutro lado depositava uma cuia (feita de cabaça ou coité) com pequenas espigas de milho de pipoca – para o café da manhã.  Tudo isto era pacientemente debulhado com a ajuda da criançada, enquanto o Vô Quincas contava suas longas e deliciosas histórias. 

 

Uma noite na casa do Vovô Quincas era única e inesquecível. Viajávamos em suas narrativas, éramos tomados pelo medo que elas nos despertavam, ao ponto de, naquela noite, ninguém se aventurar no escuro, fosse qual fosse a urgência ou a necessidade.  Era generoso nas palavras e habilidoso ao construir uma narrativa, capaz de prender a atenção de todos até o último instante, até que o fato tivesse um desfecho. Seus gestos, sua entonação de voz, enfim, pela sua boca e interpretação, as lendas, causos, histórias adquiriam vida e originalidade.

 

Mais tarde, durante o meu processo formativo, ao mergulhar nos fundamentos e teorias da literatura, contaminada pelas lembranças imaginava que tudo aquilo tinha sido inventado pelo meu avô, que a teoria literária  estrangeira não sabia, mas os contos, lendas e fábulas eram criações do “Seu Quincas”…  tantas eram as semelhanças e coincidências.

 

Sobre sua descendência, dizia num misto de mistério e realidade, que tinha sangue índio, pois uma avó sua tinha sido “pega no laço, que em certas épocas, a natureza chamava e ela sumia por vários dias, embrenhava no mato…”.  Era um pequeno agricultor que produzia e cultivava a terra com o esforço dos seus braços e ferramentas rústicas, quase primitivas. Morreu sem jamais possuir um pedaço de terra que lhe pertencesse.

 

Nas situações cotidianas, era uma beleza acompanhar Vovô Quincas em suas andanças pelo quintal, em meio aos abacates, jabuticabas, laranjas e mexericas; outras vezes as excursões ocorriam pela imensa lavoura de arroz, entremeadas por pés de abóboras, pepinos e melancias. Tudo era embalado pelas explicações por ele dadas sobre este ou aquele detalhe da plantação. Cuidava de tudo com a mesma generosidade com que acolhia os netos. Tudo limpinho e bem cuidado, um gosto de se ver, um deleite saborear tantas frutas.  Ah, neste aspecto, Vô Quincas tinha uma exigência da qual não abria mão: era preciso respeitar o momento certo da maturação das frutas para que fossem colhidas e saboreadas a seu tempo.

 

Tudo isto me fez ver mais tarde, que o meu primeiro mestre e grande inspirador na escolha profissional foi este sábio velho, sua maneira de ser e de se relacionar com o mundo foi uma fonte de inspiração para tornar-me professora.  Vovô Quincas era um sábio e culto homem sem nunca ter vivido a experiência da escolarização. Sua forma de acolher, corrigir e educar era extraordinária! Sob sua instrução as crianças eram capazes de obedecer e realizar as tarefas por ele determinadas, sem que para isso fosse utilizada a força ou algum castigo. Conseguia ser firme e rigoroso, sem ser estúpido; era disciplinado e metódico sem nunca ter conhecido um tratado pedagógico. 

 

Seja ao contar seus causos, ao entalhar os banquinhos de madeira, ao carpir o quintal ou debulhar o milho, seguia seus rituais de forma paciente, dividindo sua atenção com quem estivesse por perto, quase sempre partilhando de sua rica experiência de vida. A todos tinha uma palavra de encorajamento, jamais de pessimismo.

 

Óbvio dizer que outros tantos mestres conduziram-me na preparação para tornar-me professora, ao longo dos anos e me inspiram sempre, mas, reconheço que minhas raízes tiveram início na sabedoria e genialidade do Vovô Quincas – um educador por excelência!



 

[1] Neta do Seu Quincas, o avô mais lindo e genial que já existiu no Cerrado Goiano!!



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