Entrevista Com Professores – Eguimar Chaveiro
Filed Under Entrevista com Professores | Posted on Fevereiro 13, 2008
Eguimar, com sobrenome Felício Chaveiro (na foto ao lado), é amigo de longos anos e parceiro: de partidas de futebol no início dos anos 1990; noites de boteco a falar sobre educação, mulheres, música e poesia.
Ele diz ser inventor de poesias. Pequena grande modéstia! Já há alguns anos venho lendo o que ele escreve e ele me parece sim um escrevinhador de primeira categoria. Sua escrita é instigante e provocativa. Ela nos faz, ao terminar a leitura, querer escrever também.
Abaixo, ele conta um pouco da sua experiência e perspectiva educacional.
1) Fale um pouco sobre você (de onde veio, onde trabalha, formação, etc).
O meu nome é EGUIMAR. Para o meu avô, um pequeno fazendeiro goiano, nome de pessoa era como arroz-e-feijão. Era João, José, Pedro, Maria, Luzia, Teresa. Coisa para degustar sem dificuldade. Para ele, meu nome teria que ser João ou José. Minha mãe queria mudar o condimento; desejava botar cenoura no arroz, então pensou o nome EDMAR - sofisticadíssimo. Meu avô descobriu que Edmar era um bêbado de Araçu. Deus me livre!!!. Indo da roça para o cartório sobre uma carroça, a minha derivou de Edmar, Eguimar. Estou aqui, Felício. Chaveiro.
Trabalho no Instituto de Estudos Sócio-ambientais, da UFG. Hoje digo com nitidez: tenho pertencimento pelo local do meu trabalho, por, talvez, depender pouco dele. Faço conchavos simbólicos, negociações de atoagens com gente da Superintendência de Ensino do Estado de Goiás, da União Brasileira dos Escritores, de ONGs e Movimentos sociais. E passeei muito com gente de várias formações: sou geógrafo, mas fiz mestrado na faculdade de Educação, onde estudei psicocognição e fiz doutoramento na FACULDADE DE FILOSOFIA DA USp, no departamento de geografia com uma tese em que falei sobre Goiânia pelo viés da geografia, da literatura, da história e da psicanálise. Botei na tese a palavra TRAVESSIA e escrevi um livro A VIDA É UM ENGENHO DE PASSAGENS. Parece que quero ter uma certa consciência de MOVIMENTO, PASSAGEM…
2) Como você se tornou professor(a)?
Fui um leitor precário, talvez não tão precário, na adolescência. Vinha de uma grande crise familiar. Tinha medo do olhar do Outro. Lia para escapar da solidão sem estar acompanhado. Fiz uma pequena amizade com Sartre, ainda antes do 18 anos, assim como com Fernando Sabino, Stanislau. Isso meu levou à universidade de Geografia. Entrei em 1981. Fui cúmplice ativo da praça universitária em Goiânia.
Ali era o palco do nascimento do PT-Goiás, da luta contra a ditadura militar, do nascimento da MPB goianiense, do soerguimento dos partidos comunistas, da UNE. Todos amamos Paulo Freire; quase todos amamos Frei Betto e Leonardo Boff. Fui da Cebs. Fiz teatro - Povo da Terra. Inventei uns poeminhas. Enfrentei a timidez. De repente, me tornei professor. Estou, agora, no limiar da compreensão da grandeza da profissão - e do exercício. O que virá será grande.
3) Como tem sido a sua experiência como docente?
É uma experiência que contabiliza todo o movimento do pensamento pedagógico dos 1980 até hoje. Li Paulo Freire; fiz dinâmicas; transformei a sala de aula num círculo, disse que O CÍRCULO É EMANCIPATÓRIO. Internalizei a economia política marxista entrante na geografia até 1985, por ai.
Tive uma postura crítica à externalização do marxismo; fui um razoável leitor independente. Estive nos congressos, nas associações. Fui um professor militante. Entrei fundo na pedagogia lúdica. Embirrei sempre contra a burocracia e contra a institucionalização. Agi com violência pelo caminho da irreverência. Tentei preservar a vontade de ter um bom caráter. Fundi vários campos de saber. Tive um discurso relativamente autônomo entre Chaplin, Drummond, Quintana, Marx, Milton Santos e o meu amigo Joaquim Pedro, muito ajudado por amigos como Braz José Coelho, Cláudio Fonseca, Tânia Maia, Wolney Honório, José Henrique, Ged Guimarães, João de Castro, Horieste Gomes, Elza Staciarini, Arquidones, João Batista e tantos outros atores de minha pertença….
Ou seja, posso ser contextualizado nos momentos da universidade e do pensamento pedagógico brasileiro. Mas palpitei a minha singularidade em meio a tudo isso. Sou um professor contente com o salário, com o meu invisível, com as condições de diálogo com colegas, alunos e instituições.
4) Para você, quais são as mudanças significativas que vem acontecendo na educação brasileira nos últimos anos?
Podemos classificar níveis de mudança:
a) - em nível epistemológico, vive-se mais liberdade de pensamento, mais cruzamento de paradigmas, concepções, fundamentações. Isso democratiza o ato de saber pensar, embora abre oportunidades para frentes enlouquecidas, delirantes, ou de linhas de fuga, como a auto-ajuda educacional, o esoterismo, a resacralização do pedagógico. Há novidades, como a força da COMPLEXIDADE, da FÍSICA QUÂNTICA, da DIFERENÇA. E há, também, um movimento que repõe o papel da IDEOLOGIA, do sentido político do ver-pensar. Como há, a força da compreensão da subjetividade.
b) - Em nível pedagógico, a escola lenta no mundo da pressa, ainda pensa resolver os problemas didáticos pela via da metodologia do ensino. Apesar de isso, a meu ver, não dar conta de pensar O SUJEITO DA ESCOLA e o seu sentido histórico, cria uma escola mais criativa, mais integrada com a comunidade, com o entorno, com outras linguagens como a música, a arte plástica, o futebol, o teatro, o cinema.
Há um problema central neste nível: dar conta de criar a intersubjetividade em meio ao sujeito que é produto da sociedade desigual e apressada que, por isso, tem outra percepção, outra cognição e outras demandas existenciais.
c) - Em nível profissional, o mundo diz a escola por meio da SOCIEDADE DO CONHECIMENTO, mas a escola pública não dá conta de responder os anseios do aluno trabalhador. Vive-se, então, uma fragmentação seletiva de escolas, como ESCOLAS DA GLOBO, BRADESCO, ITAU, MST, IGREJAS ETC. E dai pulveriza, também, o conhecimento para a ética, para o sexo, para o ambiente, para o trânsito.
A escola vive neste paradoxo: ela é necessário e é aviltada. Como necessidade, reluz no discurso; e como condição real, é um lugar do desespero. Além disso, a escola se abre aos novos discursos como DIFERENÇA, AMBIENTE, SEXUALIDADE e pode burocratizar como uma espécie de MODA INSURGENTE SEM AÇÃO.
5) Como vê a educação no futuro próximo?
A educação do futuro vai carregar o jeito do mundo - e as suas condições. E seguirá a sua tradição de, em sua particularidade, se forjar como uma instituição importante para vários quesitos da sociabilidade. É bem possível, que ela seja mais fazedora, porque o mundo estará cobrando isso. O que se chama de retorno ao simples, fazer a produção voltar para os quintais, para as pequenas propriedades, intensificar o mundo no mínimo, ajustar o lugar em forma de rede e de intercâmbio, conectar saberes, artes, filosofias e crenças que vão entrar na escola.
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Olá,
Acerca da entrevista: Nesse sujeito da escola temos duas personagens complementares/diferentes/indissoicáveis e que, infelizemente, muitas vezes não se reconhecem: professor e aluno. Isso independentemente de escola pública ou privada, mas de uma amplitude de olhar, tanto nosso (educadores) quanto da sociedade, que também não tem muita certeza sobre o que é uma escola de qualidade.