Entrevista Com Professores – Aparecida Maria Almeida Barros
Filed Under Entrevista com Professores | Posted on Fevereiro 26, 2008
Aparecida Maria Almeida Barros (na foto ao lado), pedagoga, foi minha aluna de graduação em Pedagogia e hoje trabalhamos juntos no mesmo departamento, da Universidade Federal de Goiás – Campus de Catalão.
Todas estas entrevistas publicadas até o momento vêm revelando algo de extraordinário nestas histórias de vidas: cada um as conta da melhor forma que lhe convém. E isto está sendo sensacional, pois esta multiplicidade de histórias vem mostrando a complexidade das formações e perspectivas de professores no nosso Brasil.
E no caso, aqui da Cida, algo em comum: quando jovens, tivemos experiências de docências na pastoral da Igreja Católica. Ela em Catalão, e eu em Uberlândia, Minas Gerais. Mas isto é outra história que um dia voltaremos a ela.
1) Fale um pouco sobre você (de onde veio, onde trabalha, formação, etc).
Falar de si mesmo não é uma tarefa fácil, já advertia o velho Sócrates “conheça-te a ti mesmo”. Na dúvida, elegi algumas marcas e evidências que, neste momento, considero ter moldado o que estou sendo hoje. Admito que este exercício não foi uma tarefa tranqüila, pois não tem como dissipar a razão da emoção, quando mergulhamos nas lembranças…
Sou APARECIDA MARIA ALMEIDA BARROS, professora universitária, casada, a segunda de uma prole formada por sete filhos. Meus pais não tiveram oportunidade de estudar, foram alfabetizados, mas nunca tiveram, formalmente, nenhum comprovante de escolaridade. Dos meus seis irmãos, apenas dois ficaram com o Ensino Médio e Profissionalizante, os demais conseguiram concluir o Ensino Superior.
Venho de uma comunidade rural do município de Três Ranchos, Goiás, onde nasci, vivi até os doze anos e iniciei meus estudos numa escola multiseriada, isolada, rural (Escola Isolada Lindolfo Gomes), pelas mãos da normalista dona Maria de Lourdes de Jesus.
Ao chegar à quarta série do curso primário, minha mãe viúva, com seis filhos sob sua responsabilidade, vendeu o pequeno sítio e nos mudamos para Catalão - GO.
Aparentemente frágil, mas dotada de uma força e uma visão extraordinária, mamãe entendia que a cidade seria o lugar para encaminhar os estudos dos filhos e buscar um futuro profissional a todos.
Em Catalão, conclui o primário e cursei as séries do ginásio na Escola Estadual “Abrahão André”. Depois, o curso de magistério no Colégio Estadual “João Netto de Campos”, pareceu-me a opção mais interessante. Entre 1988 e 1991 cursei Pedagogia na UFG, Campus Catalão. Também no período de 1988 a 2002, fui professora na rede estadual de ensino de Goiás, atuando em diversas áreas: docência nas séries iniciais, capacitação de professores e coordenação pedagógica.
Ingressei como professora no Ensino Superior em 1995, no Campus Catalão da UFG, através de concurso público. Cursei Especialização em Ciências Sociais na UFG (1994). Fiz Mestrado em Educação na UFU- Uberlândia (1998) e em 2006 entrei no Curso de Doutorado em Fundamentos da Educação no PPGE, UFSCar (SP).
No momento estou investindo todos os meus esforços neste empreendimento. Conforme o exposto, toda a minha trajetória de formação foi realizada em escolas públicas e a minha atuação profissional também.
2) Como você se tornou professor(a)?
Durante a adolescência e a juventude, concomitante aos estudos, dividia meu tempo com serviços de babá, doméstica e participava dos movimentos da Igreja Católica: catequese e pastoral da juventude. Desta experiência, e do envolvimento com atividades de preparação de crianças e adolescentes, surgiu o interesse em tornar-me professora, razão pela qual escolhi o curso de magistério.
Um fato curioso nesta trajetória: quando cursava o terceiro ano de magistério, ainda no primeiro semestre, certo dia cheguei em casa, guardei meu material e disse à minha mãe que tinha parado de estudar, que não iria mais para o colégio. No lugar de uma bronca recebi como resposta: “sua cabeça, seu guia…” De fato, naquele ano não estudei, mas a maior lição eu tive no ano seguinte: enquanto estava a revalidar a matrícula no colégio, meus colegas de turma, aprovados no vestibular (1987), entravam na Universidade para os cursos que já estavam em funcionamento no Campus da UFG em Catalão: letras, geografia… Foi uma grande lição…
Contudo, para o vestibular de 1988 chegaram novos cursos, tive a oportunidade de optar pelo curso de Pedagogia e ingressei na primeira turma de Catalão. Neste percurso, precisei administrar estudo e trabalho, porque ao mesmo tempo em que entrei na Universidade, fui aprovada em concurso público e convocada para uma vaga na rede estadual de ensino.
Então, durante os quatro anos de graduação, trabalhava pela manhã como secretária na Paróquia Nossa Senhora Mãe de Deus, dava aulas na Escola Paroquial “São Bernardino de Siena”, à tarde, e cursava Pedagogia à noite. Por vezes, saía de casa às seis da manhã e só retornava às vinte e três horas.
À época, vivíamos uma situação de atrasos no pagamento pelo estado e o que recebia como secretária era o único recurso de que dispunha para manter os estudos e a rotina de trabalho. Mas nem tudo era sacrifício. Aliás, sempre os encarei como desafios a serem vencidos e superados.
O tempo de estudo na universidade foi muito bom, marcado por encontro com pessoas importantes, além da introdução de conhecimentos, que se tornaram uma referência para o que sou como profissional e como gente.
Acho que vale uma breve sessão de memória deste percurso (com uma ressalva: selecionei apenas alguns profissionais, dentre algumas dezenas, para evitar que essa entrevista se torne um relatório, além de atentar contra a atenção e a boa vontade do leitor).
Ouso dizer que não esqueço: do frei Chicão, (frei Francisco Eustace, OFM), americano rigoroso, pragmático, racional, mas sensível, meu primeiro patrão; me incentivou a buscar um lugar ao sol, a não me acomodar na vida e, sobretudo, a investir o melhor dos esforços em prol do que estiver sob a minha responsabilidade.
Na rede escolar franciscana, recordo com carinho das professoras Maria Aparecida Costa, Sheyla Angélica Pereira e da secretária Suelene Nancy de Melo Martins, exemplos na organização pedagógica e na administração da escola, me conduziram nos primeiros passos enquanto professora, de forma paciente e igualmente incentivadora.
Na universidade vivenciei pelo menos duas experiências altamente significativas: o encontro com o prof. Ildeu Moreira Coelho, conferencista de primeira grandeza e com Paulo Freire, em sua visita à Faculdade de Educação da UFG, em Goiânia. Através deles apaixonei-me pelo conhecimento e descobri que o grande debate situa-se no plano das idéias, não de pessoas.
Outro detalhe na graduação: Wolney foi meu professor, no primeiro ano de sua chegada ao Campus. Certo dia, ao receber uma prova de “Metodologia de Estudos Sociais” com o resultado, procurei o professor para conversar. Na verdade, minha expectativa era a de entender o que tinha feito de errado no texto avaliativo, já que não havia nenhuma observação, mas o professor achou que a minha questão era o valor da nota. Imagino que esse tenha sido um dos contatos iniciais, que nos aproximaram na relação aluno-professor e mais tarde como colegas e amigos.
Dos tempos de trabalho na rede estadual, conservo na memória a fantástica experiência de trabalhar com as professoras Maria Helena dos Reis e Luciene Santília da Silva. A primeira, ex-aluna do Centro de Formação de Professores de Catalão, na década de 1970, com vasta experiência na docência em História e Artes, na coordenação pedagógica e na direção de escola. A segunda, colega de magistério era a ponderação, enquanto eu acionava o estopim de algumas questões. Juntas, enfrentamos os desafios de aprender a trabalhar com a formação de professores à distância, no início do Projeto “Um Salto para o Futuro”, na regional de Catalão; nossas diferentes trajetórias serviram de alicerce para a socialização de experiências interessantes com os nossos professores-aprendizes.
Ao encerrar minha atuação na rede estadual, em 2002, conservo o carinho, a amizade e a determinação dos professores, alunos e equipe gestora do Colégio Estadual “Abrahão André”, de Catalão, onde partilhei sonhos, conquistas e projetos. Sem palavras para adjetivar o empenho, o protagonismo e a luta cotidiana de todos.
Quando cursei Especialização em Ciências Sociais (1995) na UFG, encantei-me com o conteúdo, a forma, e a competência com as quais a profa. Mirza Seabra Torschi realizava a docência, a pesquisa e a reflexão crítica; sua disciplina intelectual e o seu jeito de lidar com a teoria e a prática educativa (melhor dizer, a sua práxis), tornou-se uma experiência altamente significativa, que me acompanha sempre. No mestrado, a competência, rigorosidade e disciplina do meu querido orientador, prof. Fernando Marson, foram decisivas nos primeiros passos na academia.
No doutorado, em São Carlos, reconheço que o encontro com colegas de diversas regiões do Brasil e a convivência com autores da qualidade de Ester Buffa, Paolo Nosella, Dermeval Saviani, João dos Reis Silva Jr., João Virgílio Traviaglini, Amarílio Ferreira Jr. e Marisa Bittar (minha orientadora), têm me mostrado novas e interessantes referências da intelectualidade.
Na universidade, desde 1995, na condição de docente, vivenciamos muitas situações de conflitos, lutas e dificuldades estruturais, mas a descoberta de possibilidades, de construção do novo, que se abriram ao concluir o trabalho com cada turma, alimentou nossas utopias; a alegria partilhada com cada colega que se qualifica, que desenvolve projetos, que organiza eventos. Enfim, que faz a universidade existir através do ensino, da pesquisa e da extensão, tudo isso, é um universo altamente estimulante e desafiador, que mantém viva e pulsante a nossa expectativa de estar sendo professora.
Em síntese: “… Nenhum Santo sustenta-se só”… Isto é, resgatando o diálogo entre o poeta e o político n’O Ponto de Mutação: “ninguém é uma ilha. Todo homem (e mulher) é parte do continente”. Noutras palavras, este é um acre do meu território…
3) Como tem sido a sua experiência como docente?
É difícil descolar esta pergunta da anterior, pois, vejo que as trajetórias, os encontros e as situações vivenciadas ao longo do processo de formação, refletem profundamente na nossa maneira de construir a experiência docente.
De específico posso dizer que encaro a docência como um permanente desafio, da mesma forma que pesquisar é altamente instigante e desafiador. Entendo que o contato com cada turma de alunos é único. Não só os estudantes e as circunstâncias são diferentes, a busca de novas leituras, transforma as ações do professor e pesquisador no modo de organizar seu trabalho, de ver, perceber e interpretar o mundo; em cada situação de aprendizagem o próprio professor se modifica. “Somos seres inconclusos”… “temos a consciência do incabamento”, dizia Freire. Essa condição faz com que estejamos em constante e infindável busca. Por vezes nos coloca em situação de conflito, de frustração, por não alcançar nossas metas, mas jamais de apatia, pois, a própria dinâmica do processo educativo se contrapõe ao ostracismo.
Por isso, discordo das previsões mais pessimistas que consideram o professor alienado ou parado no tempo. Impossível. A sala de aula nunca é a mesma. Todos os dias nós temos a oportunidade de vivenciarmos situações e experiências inéditas com os nossos sujeitos aprendizes.
Agora, no que diz respeito às dificuldades propriamente ditas, tenho algo que acompanha toda a minha experiência docente: eu me preocupo com a relação dos estudantes com o conhecimento, com a falta de envolvimento e de empolgação dos aprendizes em relação ao saber. O conhecimento, a cultura, a arte, a estética, a filosofia, a história, a sociologia, a literatura, a linguagem, precisam ser vivenciadas com intensidade, experimentadas de maneira contagiante. Aluno de graduação que não se lança por inteiro nas diferentes faces do conhecimento, do saber, corre o risco de ficar à margem e não ter sua pele impregnada pela beleza e pela descoberta do conhecer… Não acontece mudança na sua forma de perceber e ver o mundo e, por conseguinte, limita sua visão sobre a educação, compromete, inclusive, suas escolhas profissionais.
4) Para você, quais são as mudanças significativas que vem acontecendo na educação brasileira nos últimos anos?
Acho que o grande mérito do século XX foi (e continua sendo) o esforço político e social de universalizar a Educação Básica, assegurar que nenhuma criança fique fora da escola. Junto deste há o enorme desafio em garantir a permanência e o sucesso escolar destas crianças. Isso compete não apenas ao poder público, mas se estende à sociedade como um todo: família, profissionais da educação e comunidade.
A partir da constituição de 1988, as leis e reformas ocorridas na educação, apesar de alguns equívocos, tiveram como ponto positivo, a orientação de processos democráticos no âmbito da escola e da gestão da educação. Isso é interessante. A possibilidade de vivenciar internamente alguns mecanismos democráticos, que estimulam a participação, a tomada de decisões e a autonomia, coloca a escola em outra sintonia com os sujeitos que dela fazem parte. Vejo com bons olhos a possibilidade de se construir uma escola, desde a sua estrutura física, até o seu projeto educativo, a partir dos anseios, interesses e desejos da comunidade local.
Lembro-me de uma fala do prof. Jefferson Ildefonso da Silva - quando estava no mestrado -, que alertava para a necessidade de se pensar a existência de uma escola, a começar pela sua localização, levando em conta os interesses da comunidade local. Ou seja, ao se projetar a construção de uma escola, as políticas municipais e/ou estaduais deveriam partir de um diagnóstico prévio, aonde a comunidade local pudesse se pronunciar sobre o que pensa, quer e deseja de uma escola, e considerar tudo isso na composição da equipe de profissionais, do projeto educativo, etc.
Então, observo que a relativa abertura democrática abre possibilidades para estas experiências, que devem ser conquistadas, apesar dos empecilhos burocráticos e da visão centralizadora, que ainda acompanha muitos dirigentes.
No âmbito das mudanças atuais, embora seja precoce uma análise de resultados, ainda não consigo vislumbrar quais são os ganhos projetados para a nova estruturação do ensino fundamental de nove anos. Para mim, até que se prove o contrário, (e eu gostaria de estar equivocada), a ampliação de oito para nove anos, do ponto de vista teórico seria uma forma de assegurar uma série a mais para o aluno apreender e consolidar os conteúdos básicos no ensino fundamental; concretamente, na prática, os benefícios não são mera conseqüência do aumento de tempo.
Há uma confusão nesta organização, falta de identidade e foco, que ofuscam as ações pontuais que poderiam reduzir o fracasso em determinadas séries (ou anos). Alterar a nomenclatura sem definir um projeto educativo direcionado para os problemas e questões que afligem esse nível de ensino, é um retrocesso grosseiro e mal colocado. Observa-se, dentre outras questões, uma corrida do mercado editorial, no intento de adequar suas publicações às determinações legais, à revelia de um projeto educativo consistente. Nem tudo o que acontece no âmbito das mudanças, que se encontra na pauta de governos e dirigentes educacionais, traduzem, de fato, em resultados significativos para a Educação.
5) Como vê a educação no futuro próximo?
Embora reconheça que o grande empenho político neste início de século está em aliar a universalização e a qualidade na Educação, sou pessimista em relação ao cenário que se descortina para o futuro. Há uma forte tendência em asfixiar as escolas com tarefas e atividades que tiram o foco educativo de sua pauta, além da imposição de modelos, forjados por decisões superiores do sistema de ensino, sem dar voz e autonomia aos professores e gestores escolares.
Parece um contra-senso, mas o fato é que em meio às acaloradas discussões sobre descentralização da gestão e da ênfase na participação e autonomia, muitas unidades escolares estão às voltas com a imposição vertical de propostas de ampliação da jornada escolar elaboradas em gabinetes. Refiro-me a tendência de alguns estados em implantar a fórceps a chamada educação integral, principalmente na Educação Básica pública, através do confinamento de alunos, professores e demais profissionais da escola, em espaços sem a menor estrutura física, pedagógica e de recursos, que permitam a realização de atividades ampliadas.
Em outras palavras, algumas políticas educacionais têm procurado resgatar o passivo da educação, acenando com alternativas que remontam à primeira metade do século XX, mas não levam em conta a necessidade de estruturação mínima das escolas, para que a idéia de educação integral se efetive. Basta visitar uma escola estadual ou municipal que ‘aderiu’ à educação integral, que logo à primeira vista verificamos estar a anos-luz das escolas de educação integral, preconizadas por Anísio Teixeira nos anos de 1930. Um absurdo!! Estou tentada a considerar que esse tipo de proposta é uma faca de dois gumes, que poderá comprometer, profundamente, os resultados qualitativos da educação pública na atual década.
Aparecida Maria Almeida Barros catalão ensino superior Entrevista com Professores formação de professor ufg UFSCarShare This
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