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Longe Da Lei E Perto Do Morro: Quando Bestialidade, Humilhação E Vingança Ocupam O Lugar Da Justiça.

Filed Under Cinema | Posted on Novembro 9, 2007

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Copyright © Julio Bentivoglio
Professor de História do Brasil (UFG - Campus Catalão)

Fenômeno de bilheterias, extremamente violento e provocador, o filme Tropa de Elite revela uma tendência do cinema brasileiro de incorporar uma narrativa que se ampara no cinema comercial de entretenimento norte-americano. Assim, abdica de uma linguagem estética e cinematográfica que tem momentos expressivos como no Cinema Novo, para adotar roteiro, fotografia e edição muito calcados no “modelo” americano. E como mote, toma assuntos polêmicos e muito caros à realidade brasileira: corrupção e violência. Essa combinação produziu uma acolhida sem precedentes e, ao contrário de filmes extraordinários e que ficaram ao largo dos espectadores como o maravilhoso Lavoura Arcaica de Luiz Fernando Carvalho que trilhou um caminho original em sua confecção, optou por localizar na polêmica sua principal marca. Tanto no vazamento do filme e sua venda em dvds piratas, quanto na maneira como retrata as relações de força na sociedade brasileira, mais particularmente, na cidade do Rio de Janeiro.

Mas, não pretendo aqui alongar-me neste particular, cujo interesse recairia mais nos amantes da sétima arte, preocupados com a estética e a linguagem cinematográfica, com os rumos do cinema brasileiro, e sim, deter-me no mote, a meu ver, fundamental de Tropa de Elite que, embora se ampare na relação entre violência e corrupção não é exatamente este. Um olhar mais cuidadoso descobriria que toda a trama encontra-se tecida a partir de algo mais complexo: a vingança.

Acompanhei algumas discussões sobre o filme na TV e também na imprensa escrita, sem grande interesse, confesso. Mas, depois de assistir ao filme, não existe pessoa que consiga ficar impassível. É o tipo de filme bem feito, no sentido de atrair a atenção dos espectadores, de provocar suspense, de envolver. Bem conduzido, com linguagem ágil e boa interpretação dos atores, Tropa de Elite convence. Queira-se ou não, já constitui, em si, um marco do cinema brasileiro. Embora comparações possam ser estabelecidas com Cidade de Deus, é um filme diferente daquele, especialmente porque em Tropa de Elite o olhar é exógeno à favela. Ainda que também se utilize do recurso da narrativa em off, neste último, o narrador é alguém que não mora no morro. Tampouco nasceu ou cresceu lá. É um policial do BOP que deseja deixar aquele destacamento e encontrar outra ocupação.

A face oculta pelo excesso de violência exibida - sugiro um exercício de se contar o número de pessoas mortas nas várias trocas de tiros retratadas no filme - é a da ausência da lei e da justiça e o puro e simples exercício da vingança. Os oficiais vingam-se dos recrutas durante o treinamento, porque muitos deles eram corruptos. Os jovens recrutas vingam-se de seus oficiais, atrapalhando seu esquema corrompido de propinas, logo que descobrem o funcionamento do “sistema” na polícia do Rio. O coronel vinga-se do policial que teria lhes inteirado do “sistema” colocando-o numa missão suicida. O traficante mata um dos policiais da trama, acreditando ter se vingado da intromissão em “seu território”. E então, o capitão Nascimento se encarrega, ao lado daquele que deveria ter sido morto, de lavar com sangue a honra do batalhão. E o desfecho da trama é o “tiro de misericórdia” dado com um calibre 12 na cabeça do traficante, a despeito de seu pedido de não atirar em sua face para não estragar o velório. Fazia tempo que tamanho exercício de truculência e ferocidade aparecia nas telas. Pelo menos no cinema brasileiro.

O que a história revela é que justiça mesmo, só na base da vingança. Ele mostra como em um universo absolutamente machista (vide os papéis desempenhados pelas mulheres na trama), a relação entre a casa, a rua e o Estado é urdida por meio da violência e da corrupção.

A polícia, no filme em questão, é uma instituição falida, que age à margem da lei e do Estado. Somente o BOP é digno de sua farda, que por sinal é uma expressão do luto. Toda negra, ostenta como emblema uma caveira. O BOP é uma das faces da morte. Nesse sentido, se iguala às demais polícias corrompidas, visto não desempenhar como deveria a sua missão. Nas ruas o medo da polícia, que age segundo suas próprias regras, na favela o medo e a imposição dos traficantes. Detalhe curioso é que em sua ação, é como se igualassem, porque no morro também o tráfico tem suas próprias leis e, não por acaso a polícia, quando age naquele espaço, precisa operar segundo aquela lógica: é como se houvesse um código de honra entre policiais e traficantes. O traço fundamental deste seria a “macheza”. Resolver tudo, se possível, diretamente e com as próprias mãos; e como assunto de homens. Basta lembrar da sessão que o capitão Nascimento teve com a analista. Não confiar na lei, não confiar na polícia, não confiar no Estado, não confiar em ninguém. Desse modo, a única garantia da justiça seria fazê-la por conta própria. E, como resultado natural dessa lógica: o exercício da vingança. E esta se nos apresenta gradativamente, em forte apelo sádico, com cenas de humilhação, tortura, desumanização culminando no homicídio. E é este apelo sádico constituído em torno do ato de vingar que, como pude observar nas sessões que assisti, levou as platéias ao delírio. Diante de tantas atrocidades, de tanta bestialidade, muitos iam às lágrimas e urravam de felicidade quando, na tela, pessoas eram torturadas, espancadas e assassinadas.

Faço votos que essa catarse sirva para evitar, a reprodução daquelas condutas na vida real e que, ao mesmo tempo, o debate em torno do filme possa colocar as pessoas frente ao problema que, de fato é real, da violência e da corrupção na sociedade brasileira como um todo e não apenas numa e outra instituição, no entanto, não se poderia descuidar do cerne da questão colocada pelo filme. A de que a vingança pessoal seria a única forma possível de resolução dos
problemas que afligem as cidades brasileiras.



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5 Responses to “Longe Da Lei E Perto Do Morro: Quando Bestialidade, Humilhação E Vingança Ocupam O Lugar Da Justiça.”

  1. yeda cristina on Novembro 9th, 2007 11:44

    Professor Julio, ainda nã vi o filme mas cofesso fiquei curiosa. tendo em vista que esse filme não saiu ainda nas lokadora pelo menos nas que eu loko, com isso vendo seus comentários vejo que todas as reportagens e comentários feito sobre Tropa de Elite devem ser mesmo mto chocantes. Gostei muito do seu comentário sobre o filme pois partindo da visão de um historiador que mostra a realidade urbana em que vivemos.

  2. EURIPEDES DIAS GONÇALVES on Novembro 9th, 2007 13:32

    Eu ainda não assisti o filme Tropa de Elite, mas pela polêmica que esse filme já provocou mesmos antes de ser lançado no cinema, já dá pra perceber que esse trabalho cinematográfico vai ser um sucesso de público e bilheteria. Segundo uma reportagem que eu vi na tv, o filme retrata sobra a corrupção e o tráfico de drogas, envolvendo policiais que ao invés de proteger a sociedade, eles fazem é aterrorizarem a população com atitudes incoerentes com a sua profissão. Pela polêmica provocada pela criação dessa mega produção, já leva o telespectador à curiosidade e com isso, provoca o desejo de ir ao cinema ver o filme que com certeza vai ser um marco no mundo cinematográfico brasileiro.

  3. Cinara Cristina Leão Teixeira on Novembro 10th, 2007 13:20

    Eu ainda não assiti ao filme e nem sei se assistirei. Vivemos num mundo muito violento. Onde temos a oportunidade gratuita de assistir, vivenciar, a viôlência ao vivo no nosso dia a dia e através da TV e dos jornais e revistas. Sei que o filme é uma produção nacional e que está sendo recorde de bilheteria, mas infelizmente se trata de um filme extremamente violento.
    Pagar para assistir a violência?
    Temos isso gratutitamente…
    Infelizmente…

    Cinara Cristina Leão Teixeira

  4. Joziana de Avelar on Novembro 11th, 2007 21:02

    Olha eu também ja pesquisei sobre este feômeno de bilheteria e crítica do cinema brasileiro.Mas penso que se fosse produzido um documentário sobre a realidade da educação no Brasil, aposto que não daria tanta audiência como este filme. E na minha opnião a situação da segurança em nosso país se iguala ao problema da educação .Pois do jeito que as políticas educacionais estão sendo conduzidas em nosso país, onde as verbas destinadads a educação, estão sendo desviadas, por corruptos que se dizem ministros, secretários, seja lá o que for, nossas instituições em total abandono, como as que acabo de ver em uma reportagem do “Fantástico”. Não acredito muito que com esta situação a educação irá tranformar nossas crianças .Se não for tomadas medidas, em um futuro não muito distante, nossas crianças serão personagens de histórias como as narradas no filme “Tropa de Elite”.

  5. Juliene da Silva Pereira on Novembro 12th, 2007 10:44

    Eu vi o filme e confesso que gostei muito, creio que o apelo violento marcou a historia do cinema nacional, sei que a maior parte da população quer ver realmente a realidade de nosso país.

    As mortes, a corrupção da policia, o abuso de poder, o crime, o trafico, a diferença social e algumas outras coisas mostradas no filme são fatos que ocorrem todos os dias e são mostradas em diversos meios de comunicação, são comuns esses relatos principalmente nos grandes centros como São Paulo e Rio de Janeiro, o filme só ajuntou e mostrou tudo de uma vez.

    Algo de me deixa preocupada é que com o grande impacto que o filme teve os policiais comecem a achar que devem se comportar como o pessoal do BOP. Imagine todo policial corrupto ou não achando que é do BOP.

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