A Maioridade Do Curso De Pedagogia Da UFG - Catalão
Filed Under Aprendizagem Compartilhada | Posted on Junho 13, 2009
A Maioridade Do Curso De Pedagogia Da UFG - Catalão
O Texto abaixo foi enviado cordialmente por Sergio Pereira da Silva*, professor do Curso de Pedagogia, Universidade Federal de Goiás – Campus Catalão.
Um curso, assim como uma pessoa, nasce cheio de potencialidades que precisam ser realizadas e desabrochadas. Quando ainda recém-nascida, a criança vacila para ficar ereta sobre seus próprios pés e busca na postura de seus pais um modelo para se postar e para existir. Assim o fez nosso curso de Pedagogia, inicialmente tão heterônomo, tão dependente da Faculdade de Educação da UFG, em Goiânia.
Aos poucos, tem, como todas as crianças, seus dias de birra, de traquinagens e seus lampejos de criatividade, originalidade e prenúncio de que um grande indivíduo está se formando. O curso, se bem orientado, bem coordenado, sinaliza para possibilidade de se tornar uma referência benéfica e importante para a sociedade, para a região; se, pelo contrário, ficar abandonado à própria sorte, às suas próprias vicissitudes, e se a sociedade dele não quiser notícias, seu futuro pode ser sombrio e infrutífero. O mesmo destino, vaticinam os especialistas, pode acontecer com a criança.
Um curso acadêmico, corre o risco, como também corre toda criança, de ser abusado, ser violentado, se os pais (o gestor) não estiverem atentos. Há gente que explora as crianças exigindo delas um trabalho indevido ou, na pior hipótese, exploram seu corpo. Do mesmo modo, no cotidiano do curso, haverá aqueles discentes, docentes e profissionais administrativos que o explorarão e com ele terão uma relação utilitarista, se o curso e seu gestor fizerem vista grossa.
Quando adolescente, o curso e a pessoa tornar-se-ão questionadores. Acontece a emergência da atitude da suspeita e da problematização do mundo, dos desafios culturais, sociais etc. Momento importante, que será alicerce para a vida adulta. Entretanto, quando o curso ou a pessoa se fixam neste momento e se recusam a crescer, advêm períodos difíceis e conturbados da crítica pela crítica, do discurso pelo discurso, do fazer pelo fazer, da adolescência eterna e tediosa. O adolescente consegue convencer os deuses de que ele é santo!! Nós professores, também! Ficar no simples enfrentamento, na negação da figura paterna, é um momento que precisa ser superado. Este momento adolescente, na vida do curso, pode também gerar fixações devido à falta de projetos e à desorganização para a efetivação desses mesmos projetos. Em outras palavras, pode faltar uma teleologia, um alvo claro e bem definido tanto para o amadurecimento do curso quanto do adolescente.
Mas o adolescente é egoísta, é narcisista e não vê além de sua própria beleza. Dificilmente tem uma relação com o mundo que não seja utilitarista. Assim, um curso adolescente, ou uma pessoa adolescente no curso, teria apenas pretensões de utilização da instituição para proveito próprio, para sua carreira, para sua realização pessoal.
Um curso adolescente não vê a universidade como um todo, como um lugar do qual faz parte e para o qual deve satisfações. Age da mesma forma com a comunidade: a ignora. Mas se o curso adolescente tiver a presença e o exemplo éticos de seus gestores, seus referenciais com probidade profissional, se discutir abertamente esses desafios, eludirá essas atitudes egocêntricas e utilitaristas e superará essa fase adolescente e crítico-emergente tão difícil. Desse modo, humilde e lentamente se tornará adulto, com confiança e serenidade. Essa probidade é mais facilmente alcançada quando a comunidade atenta cobra, exige, posto que já tem consciência política de que o público é conquista da comunidade, precisa da participação da comunidade na sua gestão. Com a pessoa adolescente, o processo é semelhante.
Vinte e um anos são um tempo suficiente para esses processos se efetivarem, para essas contradições e fixações serem superadas. Mas nada acontece por um toque de magia, muita discussão e polêmica temperam esse crescimento no curso, na pessoa e na comunidade. Em outras palavras, produz-se maturidade a partir dos embates, das partilhas, do diálogo, das alegrias e sofrimentos cotidianos, na gestão do curso, na sua rotina administrativa e pedagógica, nas prática de ensino, pesquisa e extensão e, sobretudo, na crescente consciência política da comunidade.
O curso de Pedagogia da UFG de Catalão fez vinte um anos. Do ponto de vista etário já é adulto. Do ponto de vista pedagógico, cresceu muito e já reivindica sua maturidade de direito. Porém, como todo adulto tem seus momentos de auto confiança e suficiência, assim como dúvidas e incertezas angustiantes. Feito de homens e mulheres, tem suas limitações e seus méritos: fraquezas humanas, excelências, limitações, utopias, coragem, egoísmo, altruísmo etc.
Como instrumento educacional e formativo, tem suas alteridades: não educa as crianças e os jovens diretamente, mas pela mediação dos profissionais que forma; não tem receitas para os impasses pedagógicos da rotina escolar, sempre cambiantes, mas oferece uma consistente fundamentação sobre a natureza humana, sua história, seus processos e suas alternativas. A partir destes, o curso de Pedagogia espera que seus egressos façam as inferências cabíveis quando os desafios da prática escolar os chamarem aos ouvidos desses egressos; não produz nenhum espetáculo instantâneo, empírico como um diamante lapidado, seus produtos são lentos, silenciosos, de difícil percepção. Talvez por isso seja tão incompreendido: seu brilho leva tempo para exibir uma imagem, um resultado.
Assim adulto, o curso de Pedagogia da UFG de Catalão tem o diário desafio de se autocriticar, como qualquer pessoa adulta deve fazer. Como curso de uma instituição pública a autocrítica deve ser ainda mais enfática, mais arguta porque somos subsidiados pelo dinheiro e pela credibilidade do cidadão. Nosso trabalho é, e precisa continuar sendo, ético, profissional e competente.
As mazelas e fragilidades próprias da infância e da adolescência ficaram e foram superadas, mas como acontece na vida de todas as pessoas, elas só não voltam pela interferência de um exercício sistemático e rotineiro de auto-reflexão.
Finalmente, há que se reiterar que a auto-reflexão do curso precisa acontecer no interior de uma reflexão da comunidade sobre a importância e os equívocos do curso. Afinal, a instituição pública, assim como o curso de Pedagogia, uma de suas células, existe para a comunidade e precisa ouvir dela suas expectativas.
O curso é adulto, somos profissionais adultos e aguardamos a presença adulta da comunidade para pensarmos juntos os rumos da formação de professores, nesta região
* Sergio Pereira da Silva – é professor no Curso de Pedagogia UFG/Catalão; mestre em educação (UFU) e doutor em Educação na PUC/SP;
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